Van Gogh

Van Gogh. Sempre ele. O primeiro quadro que tive num quarto que pude chamar de meu, ainda na infância, e que não fosse decoração de bebê, foi esse. Estrada com Cipreste e Estrela. Road with Cypress and Star. Não é meu preferido. Mas sempre foi o mais meu. Minha paisagem. Minha janela. Meu canto de estudos, meu enfeite. O quadro do meu quarto. Devido às muitas mudanças dos últimos anos ele já não era meu quadro do quarto. Por três anos esteve engavetado. Eis que hoje escrevo sob as bênçãos da estrada, do cipreste, dos trabalhadores cansados que compõe a paisagem, do pequeno chalé ao fundo, da carroça que segue com duas pessoas dentro e das estrelas. Eis que hoje voltei a ter meu Van Gogh no meu quarto. No nosso quarto. Ele não é mais só meu. Não pendurei os quadros sozinha, muito pelo contrário.

A nova casa está pronta. A nova vida já começou, enquanto eu, muito preocupada em fazer a vida funcionar, já vinha vivendo-a há pelo menos um mês, quiçá dois, e na pressa de ser responsável, mal vi a vida que vinha vivendo. Hoje ela está estampada nas minhas paredes. Não vivo mais na minha torre solitária, tão minha, só minha. Meu império de pouquíssimos metros quadrados. Me sentei no sofá no final da tarde, louça lavada, roupa na máquina, geladeira cheia de comida, quadros na parede e me vi na nossa casa. Na minha casa que não é mais só minha. E mais que isso, o muito mais talvez, não seja que ela não é mais só minha, é que é uma casa de verdade. Tem paredes de verdade, de tijolos, que dividem os aposentos. Aposentos, no plural. Não é grande, pelo contrário, mas é uma casa de adultos. Com quadros na parede. E meu Van Gogh lá. De novo. A terra é redonda e gira. A vida é cíclica. E a minha completou um belo giro, e começou um giro e tanto.

É carnaval. Ontem eu fiz faxina o dia todo. Hoje cozinhei e arrumei a casa. Foi bom. Também descansei da semana de trabalho novo. Sabe o que dizem das crianças, que precisam dormir mais, pois tudo é novidade e é necessário sono para consolidar o aprendizado e recuperar as energias, mais do que nos adultos. Sou criança de novo. Tenho sentido desespero diário por reiniciar o disco, para configurar as atualizações diárias. É um mundo novo. Cidade nova, casa nova, emprego novo, namorado novo, vida a dois, tudo novo. As ruas são novas, os caminhos me distraem. O emprego é novo, as crianças são outras, o material bonito me distrai. A casa é nova, as necessidades de arrumações e reparos me distraem. O namorado é novo, tudo me distrai. Preciso reiniciar e configurar as atualizações de disco. Ainda bem que meu HD tem boa memória.

220V, 110V. Eletrodomésticos novos. A voltagem me distrai. E-mail do orientador. Novos professores me distraem. Mensagem inbox do facebook, projeto novo, aulas voluntárias. As oportunidades me distraem. Pastel na feira. Cesta de orgânicos. Mercado novo. As gondolas de mercadorias me distraem. 3G, 4G, cabo, fibra ótica. Wi-fi ainda não foi instalado, a falta de internet me distrai. Dados rolam sobre a mesa, cartas trocam de mão, peças vermelhas, peças brancas, fichas, cadê a lapiseira? Jogos me distraem. É sua vez. É minha vez.

É minha vez. Nada me distrai mais do que a atenção que posso gastar comigo mesma. Vinte oito anos e agora minha vida é minha. Plena. Toda minha. Cheia. Atribulada. Como não poderia deixar de ser essa minha vida de JuReMa. Como não me ocupar vinte quatro horas, sete dias, doze meses? Como não fazer trabalhos voluntários, estudar, trabalhar, escrever, ler, blogar? Cozinhar, lavar, passar(?), arrumar, ir ao mercado? Como não ser JuReMa. Ser JuReMa é bom. Sofia saiu das páginas. Está vivendo plenamente a história que escreve para si própria. No pulso trago para sempre minha cidade. Nas costas trago para sempre meus pais. E os pássaros. E a música. A combinação perfeita das minhas asas. Voo nas minhas asas. Me carrego dentro do meu próprio sonho, e não há mais como distinguir realidade da fantasia. Virei palavras e as palavras viram realidade a cada carácter impresso no papel.

É assim que viro história. É assim que minha história vira vida. É carnaval. Não fujo da realidade através de fantasias, bebidas, momentos de devaneio. Mergulho nela entre louças, roupas, reparos, estudos, manuais escolares, noites de filme no sofá a dois. Talvez amanhã eu saia. Talvez veja o carnaval na rua. Mas não preciso nesse momento sair para carnavalizar. Levei meu bloco para a realidade através de minhas palavras. Dos meus sonhos. Das minhas asas. E hoje ele teve gosto de risoto e cupcake. Amanhã talvez seja de arroz com feijão, ou de cesta de orgânicos na terça-feira de carnaval.

O cipreste continua a apontar para as estrelas. Elas iluminam o caminho. Os trabalhadores me observam. No próximo fim de semana já terei wi-fi. Depois da terça-feira uma nova cesta de orgânicos. E novas palavras terão escrito mais linhas da minha vida-sonho, que tem sido tão cheia de novidades. Vou reiniciar o disco. Atualizar o novo. Sempre. Seguindo a noite estrelada de Van Gogh, seu céu multipincelado que me remete ao saudoso céu de Brasília. Escrevo sobre o sonho vivido logo mais. Antes vou sonhar a vida mais um pouco. E carnavalizar, meu bloco nas ruas do meu pensamento, nas linhas que fluem dos meus dedos. As estrelas iluminam esse caminho. Sejam as de Brasília, sejam as de São Paulo, sejam as do Van Gogh. Boa Noite e bom carnaval.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s