Então, é Natal

Acordei relativamente cedo para um dia livre. Hoje é um dia livre? São tantos compromissos que a sociedade nos impõe. Acabamos passando por mais correria do que por momentos de paz. Por mais confraternizações forçadas do que momentos de real felicidade com a família e amigos. Veja bem, não pretendo reclamar dos meus aqui. 2014 tem sido um ano especialmente feliz! Estou extremamente satisfeita com todos os meus relacionamentos e metas alcançadas. E muito, muitíssimo grata! Aos meus familiares, amigos, e todos os que tem feito parte desse momento. Mas voltando ao desabafo.

Eu moro próxima ao maior shopping da minha cidade. Nos últimos três dias quase não consigo sair de casa. A rua do meu prédio desagua numa rodovia. Preciso pegar pelo menos um trecho dessa rodovia, antes de mudar de direção, seja para norte ou para sul. Nos últimos três dias o engarrafamento nessa rodovia é perene. Na primeira vez, achei que poderia ser um acidente na pista. Não. É o shopping. Fora a total e completa falta de delicadeza e gentileza das pessoas no transito. Incapazes de compreender que eu não quero tomar o precioso lugar delas na fila de carros que invadirá o shopping, só quero passar e poder chegar e sair de casa.

Então, isso é o Natal. Cada dia menos amor, menos gentileza, menos sorrisos frouxos nas caras abobadas de felicidade, menos brincadeiras e mais obrigações, compromissos sociais forçados, regados a rios de dinheiro gastos desnecessariamente para compensar a falta de tempo de qualidade passado com aqueles que realmente amamos. Infelizmente tenho presenciado muito disso.

Hoje passo o dia do natal sozinha em casa. Tenho um dia de folga para lavar a roupa suja acumulada, fazer as unhas e para pensar, sentir saudades, escrever, e beber meu chá companheiro de todas as horas. A noite verei familiares, cozinharei. Ouvirei música, e terei mais saudades. Amanhã almoçarei com mais familiares. Me distrairei, e terei mais saudades. A vida nunca mais será a mesma. A vida sempre muda, para todos, quando acaba a adolescência, e a primeira etapa da juventude, quando saímos da casa dos pais, quando temos que trabalhar no dia de natal e aprender a ser gente grande.

Algumas pessoas vivem a infância em famílias pequenas. E o dia de natal tende a ser mais monótono, ainda que muito carinhoso, de família para família. Às vezes esse dia significa ver parentes distantes. Viajar de volta à cidade origem dos pais ou avós e rever aqueles que você mesmo muitas vezes nem sabe exatamente quem são, mas são família, e é dia de vê-los. Dia de ter as bochechas apertadas por milhões de tias na infância, de ouvir comentários sobre como você deveria conduzir os estudos e o trabalho e sobre sua vida afetiva, quando já adulto.

Os meus natais nunca foram assim. Eu cresci numa casa de vó. Na casa da Vovó! Para onde toda a família convergia todo simples e mero final de semana, quiçá no dia de Natal! Um lugar mágico, e passava esse dia entretida nos preparativos mirabolantes que envolviam morar na casa sede desse grande evento familiar. Ir ao mercado com o vovô, fazer as unhas da mamãe, lavar e organizar as frutas e castanhas com a vovó. Colher pinhas secas na rua e tingi-las com spray dourado, fazer muitos e muitos laços de fitas vermelhas e xadrez, preparar guirlandas com ramos de cipreste aparados do próprio jardim. Assistir à vovó se arrumando. Correr escadas acima e a baixo o dia todo, sendo a mensageira, pega tudo, faz tudo da família.

E depois receber tios e primos aos montes. Fazer embrulhos de última hora. Atender telefonemas. Tirar fotos. Contar histórias de Papai Noel para os mais novos. Brincar com os primos até aquela hora da ceia que parece nunca chegar. Rondar a árvore de natal. Tentar adivinhar os presentes pelo embrulho. Ver os nomes e fazer contagens de quem ganharia mais e menos presentes. Organizar e realizar amigo oculto. Servir petiscos e frutas em bandejas. Sempre com muita gente, muita luz. Sim, nos vestíamos só para ficar na sala. Mas era uma sala imensa, um mundo à parte, com seu pé direito de dois andares, e vidros voltados para o jardim e o lago.

Nunca foi monótono. Nunca foi leviano. E nunca foi solitário. Até certa época. Depois que meus avós faleceram tudo mudou. Não havia mais o nosso castelo encantado. E cada um possui outras famílias, outros lugares para estar. Outras pessoas para ver. Os primos não são mais crianças. Muitos trabalham no dia. Chegam tarde. Cansados. Falta quem agite. Falta alguém que reúna a devoção que uma vez existiu naquele momento familiar. Fosse pelas crianças, fosse pelos meus avós, todos estariam ali. Agora nos vemos. Nos amamos. Mas não somos mais a grande prioridade uns dos outros. A vida segue. As tradições mudam.

Hoje eu passei o dia sozinha em casa. Lavei a roupa suja acumulada, já que tive um dia de folga. Fiz as unhas. Cuidei de mim. E senti saudades. Mais tarde, verei familiares, e ouviremos música, e sentirei mais saudades. Amanhã verei familiares, comeremos, veremos fotos antigas, e sentirei ainda mais saudades. Essas saudades já não são só as que sinto dos meus avós e dos meus pais. São as saudades de uma vida que já não é. São saudades de mim mesma. São a nostalgia de quem teve o grande privilégio de viver uma infância abençoada, feliz, e incrível. São as saudades de quem cresceu num ambiente familiar privilegiado, nutrido dos mais belos tipos de amor. Com as mais lindas demonstrações de carinho e devoção familiar.

Hoje eu passei o dia sozinha em casa. Ainda bem. Tive o tempo de perceber como a vida é abençoada. E hoje eu sei que sou uma pessoa mais feliz, pois vivi já mais de uma vida só nessa, e a vida da minha infância foi maravilhosa. Novos capítulos me aguardam e como eles serão, só o tempo dirá. Mas tenho certeza que serão diferentes. Cada natal uma nova experiência. Talvez novas tradições surjam, e talvez elas acabem algum dia também. Meu presente de natal eterno será sempre essa memória doce de uma infância preciosa e feliz. O melhor presente que eu ganhei nessa vida foi todo esse amor, de ter crescido entre aqueles que garantiram que independentemente de estarem aqui ou não, me fariam felizes para sempre! Feliz Natal!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s