Jamais Vu

Eu sempre senti saudades do que nunca vivi. Renato Russo acertou na mosca mais uma vez. Já comentei isso aqui mais de uma vez. Sempre fui nostálgica. Uma distraída super atenta. Daquelas que perde um pedaço grande da conversa, só porque um passarinho bonito passou voando, meus olhos se perderam nos do meu interlocutor, e as palavras passaram como vento. E sem mais nem menos, essas mesmas palavras voltam sozinhas à minha mente durante um banho, ou na hora de dormir, e de repente eu sinto o amor da conversa que perdi, e ligo, ou mando mensagens para expressar o que não pude no momento certo, porque ele passou enquanto eu me perdia nele mesmo.

Ao fitar por horas o lago, de cima da minha árvore, durante toda a adolescência senti uma saudade imensa dos piratas que nunca atracaram no porto do meu jardim. Na infância, senti falta absurda das sereias que não viviam na minha piscina. De livre e espontânea vontade, passei horas infantis dentro do pequeno armário-adega, empoeirado, embaixo da escada dos meus avós, saboreando os medos que não tive do escuro. E dormi dentro das enormes gavetas abertas do closet da minha avó, vestida em suas camisolas de cetim, com seus enormes, hoje tão pequenos, sapatos de salto bege nos meus pés, sonhando com os bailes de gala que nunca presenciei. Passei madrugadas cantando de pijamas velhos e descalça, com minha mãe, fazendo penteados elaborados nos meus cachinhos dourados de criança, de festas de arromba que eram só nossas, e que nunca frequentei.

Hoje em dia minha saudade real do passado, tão cheio de fantasia, se mistura de forma inexorável com minha fértil imaginação, sempre tão alimentada por meus contos de fadas, e tecem na minha vida nada menos que um belo romance de realidade fantástica, aventura e fantasia. E aos fatos que vivi e aos que imaginei se somam aqueles outros que nunca existiram e até hoje não sei se estão no meu futuro ou se são memórias de vidas passadas travestidas de roupas modernas. Entre ficção histórica e realidade fantástica, torno-me Sofia no meu melhor estilo: o do impossível teimando em torna-se realidade sob meus olhos.

A primeira vez que tive certeza da minha nostalgia de futuro foi em 2002. Aquela foi a primeira vez que o conceito de Jamais Vu me acertou em cheio, me tirou do chão. Ali comecei a ser Sofia, enquanto era Alice no País das Black Hills. Acho que dei umas cinco ou seis voltas na trilha ao redor do Sylvan Lake, neve derretida dos picos ao redor. Uma bacia, um caldo de cultivo, onde borbulhavam meus sentimentos, minhas emoções. Ali, eu saí de mim, ali eu comecei a conhecer de forma mais sólida do que apenas na imaginação infantil todas as Juremas que habitam em mim. Ali tive certeza de estar em casa, estando mais longe do que nunca antes.

A familiaridade com a qual eu percorria as ruas de Rapid City. A intimidade criada com os Abrahamsons, conhecendo gente que me conhecia e nem sabíamos. Livros, músicas, jogos de xadrez e artesanato. Pinheiros e trilhas na floresta. Ali achei outros que compartilhavam a parte do imaginário coletivo na qual eu me inseria. Cada bom dia do esquilo na calçada pela manhã, cada pio do tordo e do corvo, do alto da entrada da escola ao nascer do sol, seguidos do barulho nos arbustos que antecedia o bom dia dos Abrahamsons vindos do outro lado, cada leitura sentada nos corredores antes da aula, eram momentos do mais autêntico Jamais Vu. Nunca tinha estado ali. Não conhecia aquelas pessoas. E ali me senti em casa.

A comprovação do meu Jamais Vu veio na despedida. Já no aeroporto depois de um arrebatador momento de Por Enquanto no ônibus, agora vinham os abraços antes do voo. E já passada do portão de embarque, eis que escuto um “Juliana” cheio de sotaque, volto e recebo da Lois a frase de que eu não chorasse, pois obviamente nos veríamos de novo.

Até hoje não os revi. Mas isso não me incomoda mais. Aprendi que existem momentos, cidades, florestas, lugares, passeios, atividades, paisagens e pessoas que são os Jamais Vus da minha vida. Nunca as tinha visto, e com elas me senti em casa. Talvez porque eu tenha um coração nômade, e minha casa esteja onde ele está. Talvez por minha imaginação fértil e ativa, que sempre construiu tantos cenários deliciosos e impossíveis para meu futuro, talvez por lembranças de vidas passadas.

Tem gente que acha que isso é fruto de toda e qualquer viagem. Que só por estar em um ambiente diferente e excitante, tudo se torna mais gostoso. Amo viajar, e sim, novos ambientes tendem a deixar tudo mais excitante e gostoso. Mas não é isso. Já fui a vários lugares e já conheci muita gente. E alguns foram muito legais. Outros nem tanto. Mas muito poucos são Jamais Vu. Já sofri de Jamais Vu na familiaridade do meu quintal, porque uma joaninha em especial me parecia uma velha amiga. E já me senti totalmente deslocada em locais que frequentei por anos.

E quando cheguei na Escócia em 2013, saí às 22h30 da estação de trem, sem nunca ter estado lá, em pleno frio de janeiro, e andei como quem chega em casa, reto até uma porta de madeira meio torta e mal encaixada no portal, com, literalmente, um caldeirão esculpido em cima e o nome do hostel, e sem ter errado nem uma curva do caminho, ali dormi, sem armário, sem pijamas apropriados, sem a tal segurança alegada. E ali acordei, e sem guia, sem mapa, sem ninguém, mas com muita simpatia, sorrisos e acolhidas fantásticas, rumei ao castelo, onde andei e passeei, como quem entra em sua própria penseira e vive sua própria realidade, entre lugares tão desconhecidos, em casa. Jamais Vu.

Alguns lugares e algumas pessoas te fazem se sentir tão em casa, que nesses momentos me pego com imensas e infinitas saudades do futuro. Futuro que nem sei se acontecerá. Futuro que são vários, como aqueles livros de aventura infanto-juvenis com diversos fins possíveis de acordo com a página que você decida seguir. Em momentos de Jamais Vu, vejo na minha frente as possibilidades dessa forma: para continuar na cidade onde está vá para a página 53 e compre um apartamento. Para conhecer o mundo pule para a página 74 e entre num avião. Para voltar a estudar siga na página 95 e veja em qual universidade você se encontra agora. Para descobrir a origem do sorriso no seu rosto vá até a página 103 e continue a leitura de lá. Jamais Vu.

Cada ano que passa, aprendo a conviver com os Jamais Vus da minha vida. Não sei se são lembranças de vidas passadas. Não sei se são frutos da minha imaginação. Não sei se são os momentos Ruby Sparks da minha vida, e se o que escrevo vai tornando-se realidade, ou se Sofio-me cada vez mais e viro personagem real, trazendo comigo as irrealidades e familiaridades da minha fantasia. Jamais Vu. Minha vida nunca foi uma Matrix. E embora já tenha tido meus Dejá Vus, eles são poucos. Não creio que tenha vivido muitos momentos iguais uns aos outros. Mas me é recorrente a sensação de total familiaridade, segurança inexplicável, conforto e intimidade com o desconhecido. Jamais Vu.

Entenda, não é todo desconhecido que me provoca Jamais Vus. Pelo contrário. Jamais Vus são raros. O desconhecido não me provoca desconforto mesmo quando não é Jamais Vu. Gosto daquela adrenalina maravilhosa de me ver entrando numa trilha desconhecida. Saboreio não saber onde ela vai dar. Adoro descobrir novos caminhos e abrir trilhas onde elas aparentemente não existiam. Tenho metas e sou caxias, às vezes até demais, com meus compromissos. Mas fujo da rotina. Adoro não saber como será cada semestre meu, com novos horários de aulas, novos alunos. Essa rotatividade entre metas impossíveis me dá o folego que preciso para tentar alcança-las. Jamais Vu. Eu gosto do gosto do desconhecido.

Mas existe uma diferença entre o gosto do desconhecido e o cheiro do chão da floresta de pinheiros, da turfa. Vinda de um cerrado savana, onde a terra vermelha tem um cheiro árido e próprio, descer do trem numa Edimburgo gelada e reconhecer o lugar pelo cheiro, isso é a cereja do bolo do Jamais Vu. É confiar que existem alguns desconhecidos que são tão familiares que eu já sei que vou amá-los, mesmo antes de conhecê-los.

Cada dia que passa me sinto mais maravilhada, abobada, feliz e confortável com meus raros e deliciosos Jamais Vus. E nessas andanças pelos desconhecidos irreconhecíveis, e pelos desconhecidos familiares estou certa e que minha casa é onde meu coração está. E que às vezes o encontro nos lugares mais improváveis. Alice que sou, vou procurando pelo meu próprio coração entre estradas de tijolos amarelos, e seguindo coelhos em tocas desconhecidas, e descobrindo no País das Maravilhas minha casa no melhor estilo Jamais Vu. E assim, fica fácil viver e conviver com o desconhecido. Já que ele é mais familiar que o conhecido. Jamais Vu.

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