Escolhas

Volta e meia me pego lendo a respeito ou debatendo ou mesmo pensando sobre questões de gênero e feminismo. É um assunto de extrema relevância, que precisa muito ser pensado, debatido, lido, enfim, muito existe a ser feito nesse campo. Mas o que sempre me impressiona é como esse assunto sempre pareceu distante, e aos pouquinhos, com o passar do tempo, tenho adquirido consciência de muitas coisas para as quais era cega antes. Esse processo é comum, e costuma acontecer quando vamos nos conscientizando e sensibilizando acerca de um tema.

O que me fez parar para pensar bem não foi o processo em si, mas a distância sentida. Venho de uma família onde todos os assuntos ditos polêmicos sempre foram debatidos, a análise crítica incentivada e, mesmo com diferentes opiniões entre os diferentes membros dessas famílias das quais provenho, sempre houve respeito pelas opiniões alheias, ou, no mínimo, a aquiescência de que divergências existem.

A tudo isso só tenho a agradecer. Mas continuei matutando, e me vieram a mente os dias na casa dos meus avós. Minha avó trabalhou com política e foi uma das defensoras e construtoras dos direitos da mulher. Porque então essa sensação de estar vendo o mundo com novos olhos? E finalmente percebi. Eu fui criada num ambiente em que as escolhas foram respeitadas e incentivadas. E onde o gênero não tinha nada a ver com essas escolhas. Não estou certa se todas as mulheres da minha família tiveram essa mesma oportunidade ou essa percepção. Mas podendo falar só por mim, digo que sim. Mesmo quando minhas escolhas não eram aprovadas, foram respeitadas.

Isso me fez ter um respeito e admiração ainda maiores pelas minhas origens. E isso não era uma coisa dita, não dessa forma. Isso estava presente no dia-a-dia, em cada pequeno momento. E nesse altar devo colocar, novamente, meu avô, meu herói. Lembro do dia em que comprei minha primeira sandália de festa, de salto fino. Tinha catorze anos e comecei a ser convidada para bailes de quinze anos de amigas da escola. No primeiro fui de sapatilha. Uma que comprei para festas, era linda, rosa claro e toda recortada como uma renda. Não me incomodava de ser a única da festa de rasteira. Nunca fui baixinha, embora não seja muito alta. Mas sempre fiquei confortável assim.

Mas voltando ao meu avô, um dia cheguei em casa com minha mãe, e tínhamos comprado aquela sandália. Hoje dificilmente seria considerada mais do que uma sandália de trabalho, mas nem minha mãe e nem minha avó eram fãs dos saltos, e aquela simples sandália de couro preto, de salto fino e médio, com cerca de cinco centímetro, eram uma verdadeira aventura para mim. Lembro que tive receio da reação do meu avô. Sabia que aquele era um marco no fim da minha infância. Ele olhou, me viu de salto, olhou para minha mãe e disse que sabia que esse dia chegaria. Vi uma pitada de tristeza pela ida de sua garotinha no fundo dos olhos dele. Mas ele se recompôs, me olhou, abriu um sorriso e disse: “O sapato é de bom gosto minha filha, e você ficou muito bonita, uma mulher.” E continuamos com nossos afazeres.

Essa simplicidade em lidar com emoções profundas misturadas a banalidades da vida sempre me deu segurança para entender que as pessoas têm emoções e são influenciadas por elas, e ao mesmo tempo total liberdade para ser quem eu quisesse. Não havia piadinhas disfarçando ciúmes ou rancor, não havia bullying familiar. Só o momento de reconhecimento das emoções e a constatação de que a vida é de cada um, e a minha também.

Outros momentos desse tipo continuaram existindo, mas o mais relevante veio quando estava com algo em torno de dezessete anos, logo antes de começar a namorar e pouco antes da hospitalização do meu avô, que culminou com seu falecimento um ano depois. Um dia, após o jantar, meu avô me chamou e me disse em tom muito sério: “Me prometa que você vai se formar na universidade antes de se casar!”, eu prometi, afinal os estudos sempre foram prioridade na minha vida, e nunca fui de ficar sonhando com casamentos. Até aí pode parecer uma imposição, um desejo de controle, ainda que com a melhor das intenções. O mágico veio a seguir. Ele prosseguiu: “Não se case antes de se formar, e nem tenha filhos, para que você possa garantir seu poder de escolha”, aquilo tudo me soava lógico, mas tão distante que só aquiesci sem pensar, mas ele não parou: “Se você casar ou tiver filhos antes de formar e possível que não se forme, e se não se formar terá que aceitar o emprego que lhe oferecerem ou a vida que o seu marido quiser ou puder lhe dar. Os filhos se tornarão prioridade e pode até ser que você consiga manter suas escolhas, mas será mais difícil.”

Foi nesse ponto que comecei a entender o raciocínio de meu avô. Ele ainda prosseguiu: “Forme-se primeiro, e depois você terá mais chances de escolher um emprego, e montar sua vida como desejar. E mesmo que você escolha, em qualquer momento da sua vida, ser uma dona de casa, ou não ter emprego, ou parar de trabalhar para ter filhos, ou voltar depois, ou não ter filhos, enfim, o que você quiser, será uma escolha. E é importante, minha filha, que seja uma escolha sua, e que você possa fazê-la”.

Na época reforcei a promessa, achando meu avô um homem preocupado comigo e feliz com seu amor. Hoje em dia pensando nas questões de gênero minha cabeça dá voltas sobre quem era esse homem, e o que o fez falar para sua neta, com esse gap de duas gerações, uma fala tão incrível. Quando penso nessas questões sei que existem muitas vertentes e longos caminhos, mas uma coisa que me parece óbvia é a necessidade da livre escolha, e, principalmente, do respeito às escolhas feitas. Uma mulher precisa poder escolher como vai ser sua vida, e suas escolhas não devem ser recriminadas ou descriminadas, quaisquer que sejam, desde que sejam escolhas livres.

E quando penso nisso, penso que discordo de que uma mulher precisa da livre escolha. Todo ser humano precisa disso. As pessoas precisam ser quem quiserem, como quiserem e quando quiserem. Sem raiva, sem ódio, sem censura, sem ciúmes, sem rancor. Precisamos aprender a fazer escolhas e ter consciência de que as vezes nossas escolhas assustam e até machucam emocionalmente os outros. Mas que são nossas. E só a compaixão, o respeito pelas escolhas próprias e alheias, e a aceitação das diferenças é que poderão superar esses sustos. Não precisamos ser todos iguais. Como dizia seu André: “O que seria do amarelo, se todos gostassem de azul?”. Eu por exemplo, prefiro roxo e vermelho. E tenho duas cores preferidas. Sei também que já contei partes dessa história, mas existem dias que esse tipo de ideia precisa ser reforçado e celebrado. Eu tenho muito a agradecer, e compartilhar esses pedacinhos de histórias é uma forma de disseminar no canto dos passarinhos um pouco desses conceitos, um pouco da minha história.

2 thoughts on “Escolhas

  1. Fui sendo envolvido pelo texto e me vi profundamente apaixonado por cada palavra. Lendo as falas de seu avô dá para perceber de onde veio tamanha sensibilidade da sua parte.
    Agradeço por ter compartilhado esses ensinamentos.
    Beijos!
    Ernesto

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