Nunca me apaixonei

Fazendo um paralelo com aquele filme da Drew Barrymore (amo ela, amo o loiro grunge esquisito dela, os filmes aleatórios dela, e o fato dela ser uma hollywoodiana tão cheia de peculiaridades pouco aceitas em Hollywood, embora até comuns) Nunca Fui Beijada, segue uma historinha de fim de semana. Soltando a frase bombástica: nunca me apaixonei! Corram para as montanhas, porque tem muita gente que se ler isso vai querer entender, então caso você seja um leitor, respire fundo, mantenha a calma e leia até o fim primeiro. Sim, já amei! Amei muito! Não, nunca me apaixonei. Não sei que gosto tem, que cor tem, que forma tem, se é que tem.

Primeiro deixe-me falar sobre as diversas formas de amor e de separá-las bem da paixão. Amor é uma coisa linda, na qual minha vida sempre esteve imersa. Cresci numa família muito amorosa e de cedo experimentei amor em doses cavalares. Amor de mãe, amor de avô, amor de avó, de tio, tia, primo, prima, vizinho, amigo, cachorro, o de cachorro, aliás, é um dos mais incondicionais e maravilhosos e devia constar no topo da lista! Mas sempre duvidei do tal amor homem-mulher. Acho que já comentei isso aqui em outros textos. Talvez tenha sido um reflexo da relação dos meus pais que foi muito conturbada, cheia de desconfianças e traições e do fato deles terem, por isso, se separado antes de eu nascer. Talvez seja porque minha mãe nunca mais teve nenhum outro relacionamento, que eu saiba pelo menos não, então não importa, não convivi com paixão.

Tinha meus avós, ok. Fato que eles demonstraram um casamento sólido e baseado no companheirismo, de cinquenta e seis anos. Inclusive vi minha avó definhar em depressão até a morte em poucos anos depois da ida do meu avô. Mas isso foi mais tarde, quando já tinha descoberto que o amor era possível. Na adolescência meus avós eram, para mim, seres obviamente assexuados, que inclusive habitavam quartos separados, e que eram muito amigos, muito companheiros e tinham uma bela e enorme família para cuidar. Isso não me inspirava nada relacionado à paixão.

Minha mãe era uma Rapunzel. E eu conheci a história que fica depois do fim do livro. Quando eu nasci ela já estava com os cabelos curtos e lá no alto da torre. Trancada por conta própria. Já tinha fugido da torre, já tinha se aventurado, já tinha dado errado, já tinha se assustado, e para a torre ela voltou e lá ficou. Nunca me prendeu, pelo contrário, de cedo me ensinaram a escalar as paredes da torre, a brincar com cordas, e virei logo moleca, nem o isolamento me assustava, nem a altura, nem a distância com a civilização. Ia e vinha e me acostumei com a solidão e a reclusão dela como algo natural. Existia o mundo, e existia a torre da Rapunzel. E essa Rapunzel era esperta, como ela sabia falar com os pássaros, habilidade perfeita e inata, lá da época de torre original, quando os cabelos eram longos e hippies, ela continuou utilizando os pássaros e sua música como ponte com o mundo. E os que ouviam sua voz, sua música e sua conversa com os pássaros achavam que ela estava entre eles, vivendo no mundo. Alguns poucos sabiam que isso era apenas uma artimanha para ela permanecer na torre.

Seja como for, fui uma adolescente muito cética. Tive minhas paixonites, crushes, tive sim. Umas duas ou três, dependendo da intensidade considerada. Uma só dependendo de outras. Nada que tenha virado nada. Nem em beijos resultaram. Foi uma coisa bem leve, embora algumas coisas tenham me marcado para sempre. Meu amor de adolescência foi forte, pleno e perdura até hoje no que diz respeito as amizades. Aprendi a construir uma família com muitos sobrenomes e o amor continuou a transbordar. Livros e filmes de aventura, de amizade, de sair pelo mundo e encontrar seu sentido nele sempre me cativaram. Os românticos não. Alguns filmes me marcaram e gosto muito, porque foram icônicos da minha geração, como O Casamento do Meu Melhor Amigo, Nothing Hill, 10 Coisas que Odeio em Você e outros. Mas nunca me vi ali.

Sempre sofri de nostalgia de algo que não sei bem até hoje o que é. Essa nostalgia passa e me emociona pois parece que me encontro quando viajo, quando caminho por aí. A melhor definição já esteve num Bloquinho por aqui, uma saudade de coisas que nunca vi ou vivi. E sempre achei que perseguir essa sensação fazia mais sentido do que tentar me apaixonar. Outra coisa que muito me angustiava e angustia até hoje é o hábito que percebo em amigos e conhecidos (e até em desconhecidos) de querer tanto ter alguém ou estar em uma relação que isso se torna mais importante do que a pessoa em si. Sempre achei isso bizarro. Entendo os outros, mas acho um belo tiro no pé.

Com todas essas sensações, sentimentos e crenças, coloquei essas ideias românticas de lado, e comecei minhas viagens. E entre muitos livros, que são viagens, muita música, que são viagens, e viagens propriamente ditas, fui aumentando, em vez de saciar, minha saudade de tudo que nunca vivi. E fui uma adolescente sem histórias românticas, ou com alguns casos, ou causos para contar, de coisas que na verdade nunca aconteceram. Só que eu não tinha essa consciência assim de tudo isso, dessa forma organizada, na época. Só sabia que o mundo romântico me bastava na música e nos livros.

Um dia, viajando, vivendo aventuras, conheci alguém que decidiu enfrentar minha descrença. Apareceu e reapareceu. Insistiu. Se fez presente na minha vida. Foi meu cavaleiro, espada em punho, cavalo branco, pronto para salvar uma donzela de uma alta torre. Já expliquei essa história aqui também. Mas eu, sendo filha de uma Rapunzel exilada por escolha própria, era íntima da torre, e não precisava ser salva. Não me apaixonei. Mas gostei da coragem de insistir do moço. Era a primeira vez que eu não era imediatamente classificada como amiga e pronto. Já estando com meus dezoito anos, resolvi viver essa história e ver onde ela iria. Nunca imaginei.

Minha vida virou tormenta e por mais de dez anos naveguei águas impossíveis que naufragaram quase todos os navios que estavam na minha frota. Eu sobrevivi. Um tanto quanto náufraga, mas sobrevivi. E o cavaleiro se fez! Todos os apuros inimagináveis apareceram em minha vida. E ele pode ser tudo o que ele queria ser para uma donzela. Me fiz donzela para que ele pudesse ser um porto seguro nessa tormenta, e assim o foi, por muitos anos. E nesses anos o amor nasceu e cresceu lentamente. E amei muito. Muito mais do que jamais achei que seria capaz, ou que era possível, ou que existia. Mas nunca me esquecerei, que a primeira vez que disse “eu te amo”, era mentira. E eu sabia muito bem disso. E demorou muito tempo até que aquelas palavras saíssem de minha boca com significado real. Algumas pessoas tem histórias complexas a respeito de suas primeiras relações sexuais. Para mim o complexo foi esse primeiro “eu te amo”. Nunca me esquecerei o lugar, a roupa que vestia, como agi. E muito menos de que cada palavra saiu lentamente da minha boca, o que deve ter soado marcante, mas a hesitação não era alegria. Era medo de estar fazendo uma besteira.   Até que a tormenta passou, e já não havia mais o que salvar, não havia espaço para um cavaleiro ali mais. E eu até demorei para perceber isso, ainda rota dos naufrágios.

O tempo foi passando, e a vida romântica continuou sendo ficção na minha vida. Livros, filmes, e muita nostalgia e saudades não sei de que, misturadas agora com saudades infinitas de todos os que se foram nos meus naufrágios. Um dia, conversando com algumas amigas muito queridas, comecei a tentar explicar minhas expectativas, ou falta delas, em relacionamentos, e a própria falta de novos relacionamentos. Enfim, falávamos de amor, de paixão, de solidão, de rejeição, de realização. E foi só ali, enquanto tentava me explicar para aquelas amigas, cheias de conselhos tão bem intencionados e tão distantes e vazios para mim, que percebi: nunca tinha em apaixonado.

Depois dessa constatação, um tanto quanto perturbadora, aos vinte e sete anos de idade, voltei para meu romantismo platônico, tão presente e farto, na música e na literatura. E olhando nos espelhos da minha alma, que muitas vezes são os livros, os filmes e a música, comecei a desvendar o mistério. Uma parte desse mistério vem da descrença que nasceu na infância e cresceu na adolescência. Uma parte da minha falta de paixão vem do excesso de amor verdadeiro e amizade. Outra parte vem do fato de que tendo tido um relacionamento muito longo, e muitos problemas familiares, não passei pela fase de muitos namoros de adolescência e/ou primeira juventude, anos de faculdade, nem nada disso.

E olhando mais a fundo vi meu medo. Um medo enorme, e tão irracional quanto meu medo de borboletas. Eu não tinha esse medo antes, assim como na infância também não tinha medo de borboletas e até brincava de deixa-las pousarem no meu dedo enquanto cuidava do jardim com minha avó. Um medo que veio pelo fato de nunca ter lidado com isso até os quase trinta anos de idade. Não, eu não estou brincando. De novo, sim, eu já amei e muito. Sim, eu já tive quedas por vários meninos e rapazes, e até me peguei pensando que poderia dar certo com um ou dois nesse meio tempo. Mas para por aí.

Num dado momento, percebi, quando assistir ao filme Ruby Sparks, que eu sempre esperei ser Ruby. Esperei ser musa, esperei ser admirada, procurada, ansiada. Mas eu não sou assim. Não sou porque eu não quero isso. Não quero desespero, não quero inquietude. Prefiro a solidão aos joguinhos tão comuns por aí. Lembram-se que nasci e fui criada na torre? Pois é, sei muito bem que gosto tem. Sei viver princesa na torre sem precisar de nenhum dragão ou besta-fera de guarda. Também não preciso de nenhum príncipe ou cavaleiro para me salvar. Subo e desço quando quero, e saio por aí.

E aí percebi. Eu não sou Ruby. Eu sou o escritor. Eu escrevo essa história. Eu escrevo a minha história. E torno-a mais e menos real. E a cada dia ela se torna mais surreal. Só que sou Alice e sou Sofia também. E por isso aprendi que me perco nos longos passeios nos jardins que acabam no País das maravilhas e me esqueço de voltar, de retomar o que chamam de vida, e de escreve-la. Quando retorno, a cada palavra digitada sou mais Sofia, e viro personagem, enquanto meus personagens saem do papel e viram realidade. E o que isso tem com a paixão, JuReMa? Tudo. E nada. Pois pode ser que a realidade seja mais surpreendente que a ficção, ou não. Pode ser que essa tal paixão, e esse tal amor, de música, de filmes e de livros exista, ou pode ser que não.

Enquanto isso, sigo minhas andanças despreocupada. Vou escrevendo minha história, transformando minha vida em palavras e as palavras na minha vida. E olha a lua pela janela, e solto minhas palavras no vento, no tempo. Já amei, amo muito, e sou abençoada por ter muito amor na minha vida. Já tive quedas, crushes e tenho causos para contar. E essa história ainda está sendo escrita. Para Alice, para Sofia, para JuReMa.

 

 

 

 

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