Os Beijos de Balthazar

Em um desses dias de Cena lá estava eu JuReMa, sendo Alice, sendo Sofia, correndo entre realidade e ficção. E me vi num píer. O lugar me pareceu muito propício para reflexões pessoais, uma vez que venho de uma cidade surreal onde a seca e a vida lacustre convivem em harmonia, e onde as crianças frequentam píeres e sabem muito utiliza-los para suas brincadeiras, ou, conforme os anos passam, para suas reflexões. Sempre tive dois favoritos para reflexão, que mudaram anos depois devido a viabilidade de frequentá-los. Um é o píer do meio, são três, que ficam no acesso da ciclovia atrás da QL 12 do Lago Sul. O outro é o já inexistente mini-píer que ficava na casa onde eu cresci. Dali acreditava que veria os piratas chegando, os monstros marinhos do lago, os pássaros mais fantásticos, trazendo notícias de mundos paralelos. E foi ali que li muitos dos livros que me possibilitaram esperar por piratas, pássaros mágicos e mundos paralelos. Ali também aprendi a tabuada e anos depois refleti, ri e chorei todas as minhas dúvidas e angustias da adolescência.

Quem nos dera que refletir, rir e chorar fossem privilégios da adolescência. Quanto mais a vida passa, mas percebo que é moto contínuo essa atividade de se perder e reencontrar-se. Pelo menos me sinto no lucro por saber que já me reencontrei várias vezes, apesar de ser uma perdida. O dia que me levou até aquele píer foi um dia extremamente produtivo. Fruto de muita reflexão e de uma semana de crises existenciais. Mas ouvi belas palavras durante essa semana de crise, que me diziam que a crise é muito bem vinda, pois serve para nos tirar da nossa zona de conforto. Estar em crise significa que estamos prontos para dar novos passos, viver novas aventuras, sair do lugar, e pensar em como sair é, muitas vezes, trabalhoso e doloroso, mas não há demérito nisso, muito pelo contrário. Há o mérito de querer se encontrar novamente, em novos ambientes, em nova pele. Ou, às vezes, em pele antiga, redescoberta como papel de parede descascado.

Velhos gostos que retornam como velhos amigos. Sabe aquele velho amigo que você gosta muito, mas nem sabe como nem porque perdeu contato, e quando reencontra fica meio culpado, por saber que não deu atenção? Aí existem duas opções, ficar no sorriso amarelo e perder a oportunidade, ou abraça-lo de coração e se permitir o reencontro, apesar da leve culpa de abandono. E quando isso ocorre, geralmente somos abençoados com a percepção de que o afastamento não foi culpa de ninguém, e que bom mesmo é se reencontrar e ser feliz.

As pessoas tendem a se culpar muito, por tudo e qualquer coisa, e com a culpa vem o medo, o medo do julgamento, o medo da rejeição, o medo da vergonha, o medo de dar errado, o medo do ridículo. E o medo paralisa. Porque arriscar? Porque tentar se reinventar? Porque correr trás dos sonhos? Quando a vida já está aqui, e é tão exigente. Trabalhamos, sustentamos, corremos, e muitas vezes ainda cuidamos do corpo, da saúde e da família. Já não basta? Não é muito já? Sim, é! É muito e dá muito trabalho e, se bem feito, nos ocupa vinte e quatro horas por dia, sete dias na semana. Mas eu queria mais…

Desde a adolescência eu quis mais. Mais o que, JuReMa? Quer salvar a humanidade? Acha mesmo que vai mudar o mundo? Cresci ouvindo essas críticas. E as palavras dos nossos pais (tios, avôs) nos marcam a ferro, como já dizia Balthazar. Na verdade, pensava dentro de mim, sim! Sim, quero! Quero salvar a humanidade e mudar o mundo! Não faço ideia de como, mas se puder, quero. Quero pelo menos tentar. Quero entender que há mais entre o céu e a terra do que acordar, trabalhar, ter filhos, comprar uma casa e morrer. E não digo isso como uma crítica a quem assim o faz. Mas eu, apesar de querer tudo isso, sempre quis algo a mais. Como um tempero. Ver e conhecer, e entender. Como dizia a Mafalda para Susanita, “Isso não é vida, é fluxograma!”, e eu quero viver e não só cumprir o fluxograma! Ou como dizia Oscar Wilde, eu não quero só existir, quero viver. Ou sendo Menina Maluquinha, sempre quis abraçar o mundo com as pernas.

Acabei tendo que carrega-lo nos ombros, como um titã, e devo dizer que é bem menos confortável. Durante alguns anos senti muita falta da panela na cabeça. E o peso do mundo sobre os ombros me roubou a coragem de muda-lo, como já dizia Renato Russo. E com a coragem roubada, fiz muito de tentar me encaixar no fluxograma, já que com o mundo nas costas perdi o ritmo das matérias e saí da grade, perdendo a preferência na hora de requisitá-las. E nessa acabei vivendo, aos vinte e poucos, fases dos cinquenta e muitos, e aos vinte e muitos tento recuperar fases dos vinte e poucos ao mesmo tempo que me preparo para as matérias dos trinta, que estão logo ali depois da curva.

E nessa de me reencaixar ao fluxograma por necessidade me peguei entrando em sua inexorável zona de conforto. Um belo dia, saí mundo afora, com saudades de mim mesma, de ser menina, de ser maluquinha, de abraçar o mundo com as pernas. E de lá a Mafalda em mim voltou aos chutes e pontapés à vida de fluxograma, gerando as crises existenciais. Percebi que o mundo já não está mais sobre meus ombros. E que, talvez, com um pouco de prática, aulas de yoga, e retorno da flexibilidade, possa voltar a abraça-lo com as pernas.

E assim, Mafalda que sou, comecei voltando à pratica do yoga, depois às leituras, e lentamente, a coragem de mudar o mundo está voltando. Mas o meu problema, é que tenho um lado São Tomé, ou até pior do que ele. São Tomé pelo menos acredita quando vê, eu não acredito nem vendo. É o efeito Titã, que me deixou cheia de poeira das últimas guerras, como já dizia Skank. E nessa de não acreditar nem vendo, vou aos poucos cumprindo com as obrigações, mas às vezes me falta fé para voltar a ser maluquinha.

E lá estava eu JuReMa, no píer, acompanhada de Balthazar, que acreditava somente em sua maldição, até que foi curado pelos beijos de um estranho. E quando acho que não sou Sofia, sou JuReMa, saio da peça, saio do píer, e encontro amigos, conhecidos, família. E eis que num momento surrealmente Sofia ela vira para mim e diz “Quer dizer que você não acredita que é organizada e capaz? Tá pior que os beijos de Balthazar, hein!” me abraça e vamos embora. E vim assim, pensando nos beijos de Balthazar. Sim, era, de novo, tudo o que eu precisava ouvir. Aquela frase foi o meu beijo de Balthazar. Não dá para desacreditar sem tentar. Que venha então a panela na cabeça, porque essa JuReMa, Sofia, Alice, resolveu dar ouvidos à Mafalda e ser Maluquinha.

Que o mundo, descido de meus ombros, se transforme em bola de circo, pois além de abraça-lo com as pernas, vou caminhar sobre ele, como um malabar! Como já fazia, aos oito anos de idade, e depois aos dezoito de novo. Já que os vinte e oito estão a poucos meses de distância, me parece apropriado ressucitar a circense e andar sobre o mundo. E trazer da infância Mafalda e o Menino Maluquinho, para acompanharem Alice e Sofia da adolescência, e assim, sairemos todos da zona de conforto, do fluxograma, para o mundo.

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