O Dia do Amor

A menina colocou a mão dentro da bolsa enquanto dirigia. Olhos na pista, uma mão no volante e a outra remexendo os bolsos internos. O ar de sua cidade já começava a ressecar e os lábios da menina pediam arrego, pediam umidade, pediam silêncio e sossego. Naquele breve momento de trânsito entre sua casa e o trabalho, numa manhã qualquer, isso significa achar o hidratante labial. Aquele pequeno objeto com formato de batom, um pequeno cilindro de plástico branco com a tampa levemente abaulada, como o topo da cabeça de um elefante asiático.

Porque a comparação com o elefante? Algo tão pequeno como aquele batom, e a menina pensando em elefantes. Em sua mente veio a imagem perfeita. O livro pequeno, quadrado, capa grossa em papel brilhante branco. Lateral de espiral, como um caderno, recoberta pela grossa capa branca. Dentro a maravilha das maravilhas, algumas páginas era transparências com desenhos pintados, que quando viradas revelavam mistérios incríveis. Era pequeno, mas um dos livros mais divertidos que a menina teve na infância. Não era um livro de estórias. Continha fatos científicos, curiosidades sobre a vida natural. Seu título? Elefantes! Não eram sequer os animais preferidos da menina. Mas aquelas páginas transparentes, que contavam, escondiam e revelavam, para sempre conquistaram a menina.

Enquanto esses pensamentos iam e vinham de sua mente a mão continuava a circular dentro da bolsa, procurando o fatídico protetor labial. Um ato tão comum, tão feminino, parte de seu cotidiano, a eterna procura das mulheres por itens sumidos no infinito do fundo de suas bolsas. Toda mulher é Mary Poppins quando se trata de achar coisas em suas bolsas. Um carro freou em sua frente. Seus olhos se focaram no presente enquanto os pés rapidamente mudavam de pedais e a mão sobressalente saía rapidamente da bolsa para a marcha, numa troca rápida de papéis entre Poppins e piloto.

Nada acontecera. Parara o carro com distancia suficiente do próximo. Mas parar naquela via? Uma via expressa? Não fazia sentido! Aproveitando o momento ilógico, a menina, já com o carro parado no engarrafamento esdrúxulo da via expressa, olha para dentro da bolsa e vê logo em sua cara o tal protetor labial. Mas que loucura é essa que quando não consegue olhar não acha logo, e quando já não precisa mais de malabarismos, lá está?! Enfim, ela pega o batom, aproveita a inércia, baixa a pala de sol, abre o espelho, passa o protetor e os lábios muito lhe agradecem. Parece até que bebeu água. Hum, água. Numa velocidade que não ultrapassa os dez por hora ela aproveita e bebe água, ajeita o cabelo, limpa os óculos. Guarda tudo na bolsa novamente.

O transito volta a andar antes que a menina conseguisse devolver todos os itens para a bolsa. Justamente o protetor labial ficou em seu colo. Com uma mão no volante, a outra volta para a bolsa, com o batom na mão, tentando encaixa-lo no bolso interno. E nesse momento seus dedos esbarram num pequeno coração. O batom fica no bolsinho, a mão não volta vazia. Volta com um pequeno pedaço de papel de caderno entre os dedos. Ela sorri. Tinha se esquecido completamente daquele bilhete. Sua mente fez contas velozes. Deveria estar ali há exatamente um ano. Nossa, que horror! Não esvaziara aquela bolsa de dia a dia em todo esse tempo? Fez uma nota mental para trocar de bolsa assim que entrasse de férias, uma semana depois, e lavar aquela urgentemente.

O transito andava e o pequeno bilhete continuava em seus dedos. Assim que estacionou, guardou-o sem aquela brincadeira ligeiramente perigosa de caçar dentro de sua bolsa com uma mão só.

Antes disso, entretanto, sua mente divagou. Não precisava abrir o bilhete para saber seu conteúdo. Um papel de caderno, letras batidas pelo ferro da máquina de escrever em fita, um pequeno coração cor de rosa, ligeiramente alongado, fechando. Dentro um poema de internet, adicionado de seu primeiro e quase desconhecido apelido, dado por uma antiga amiga de sua mãe. Não, aquele não era um bilhete de amor. Não havia nenhum relacionamento entre aquele que o entregou e a menina. Na verdade aquele bilhete possuía outras duas cópias. O mesmo papel de caderno cortado em tamanho pequeno, a mesma letra batida à máquina, o mesmo coração alongado no fecho. Os poemas variavam de acordo com a garota que o recebeu.

Foram todos escritos a quatro mãos. De um garoto e sua irmã. Entre aquelas três amigas que incluíam a menina, o amigo e a irmã, nada de amor. Uma brincadeira. Um dia dos namorados passado entre solteiros, um mimo entre amigos. Uma gentileza. Sim, gentileza gera gentileza. Pequenos gestos. Gestos de amizade. Gestos de amor? Sim. Aquele não era o único. A vida da menina estava polvilhada de muito amor. Muitos amigos queridos. Muitos familiares amados. Entre homens e mulheres, de todas as idades, com diferentes tipos de relação, em diferentes ambientes, havia entre todos, muito amor. Havia muito amor da vida da menina. Como dizer que não havia amor ali. Sim, havia muito amor.

A menina sempre foi muito cética em relação ao amor. Esse amor, tradicionalmente chamado de amor homem-mulher. Como chamar esse amor hoje em dia? Como explicar os diferentes tipos de amor? Explicar para quê? A menina viveu um relacionamento bonito, e que lhe ensinou muito. E que acabou. E o tempo passou. E nesse período em que a menina é solteira, ela amou muito, e tem sido mais amada ainda. Como lidar com esse sentimento? Amor sempre foi algo inusitado para a menina.

Bilhete na bolsa, ela tranca o carro, guarda a chave, e vai em direção às escadas da escola. Anda pelos corredores, em direção a sua sala. No caminho uma fila de crianças de cerca de quatro ou cinco anos. Estão saindo de outras atividades, balé, judô. Alguns na fila são seus alunos. Mas a aula com a menina é no outro dia. Ainda assim, uma menininha de tchutchu rosa sai da fila, corre a abraça as pernas da menina, local que alcança, enquanto fala “Oi, teacher”! A pequena criatura rosa ganha da menina um beijo nos cabelos. E enquanto ela equilibra seus livros, materiais, bolsa, chave do carro, garrafa de água, para que tudo não despenque, eis que recebe outro aperto na região da barriga dessa vez, alguns passos à frente no corredor. A mudança de altura do abraço indica a variação de idade da criança em questão. Dessa vez é uma que terá aula naquele dia. Veio correndo, ajuda a menina, nesse momento professora, a abrir a porta da sala. Está animada e com um sorriso nos lábios. Puxa um papel meio amassado de dentro do quimono suado e entrega à menina com entusiasmo, “fiz esse desenho pra você, teacher”!

A menina recolhe o papel com mais um beijo entre cabelos suados, e põe todo seu material sobre a mesa. Só então desamassa o papel, e se depara com um sonoro “I love you”, com direito a coração no lugar do love, seguido de um ticher, com erro de grafia. Um sorriso de canto de boca, daqueles ligeiramente tortos brota no rosto da menina. Emoção pelo carinho gratuito, graça no erro cometido, e acima de tudo amor. O papel volta ao seu amassado já cativo, e a menina o coloca na bolsa. E segue com sua vida. Seu dia de trabalho. Agora, polvilhado de mais amor. Amor amigo, amor infantil, amor que nem sempre é amor. Gentileza.

A menina não gosta de dirigir no lusco-fusco do anoitecer. Mas aguarda pacientemente na porta da escola. Já são seis, logo eles estarão no carro. Ouve uma música para aquietar a mente. Abre os olhos com uma leve batida na janela. Destranca o carro por dentro e entram aqueles dois seres humanos tão seus. O menino mal se acomodou no banco, e a menina já está ganhando um beijo na bochecha daquela outra menina linda, de cabelos negros e olhos de ressaca, olhos de Capitu. Ao se desvencilhar do beijo a menina anuncia “vamos fazer um yakissoba de jantar”?! É uma pergunta e uma afirmação. Seu sobrinho abre um sorriso genuíno, “Vamos”!

A menina sai do banho, coloca o pijama. Olha pela janela. Não está em casa. Está na casa de sua cunhada, sua irmã. Está cuidando dos sobrinhos aqueles dias. Os pais viajaram em diferentes errandas. Ela olha as luzes da quadra e posiciona o travesseiro de forma que durma melhor. Ainda não deitou. Está se ambientando num quarto que não é seu. Ouve uma leve batida na porta seguida de um “tia…”. E encara aqueles olhos de Capitu, que seguram uma escova de cabelo entre as mãos. De pijama e cabelos molhados a menina senta de costas para a menina. Sem palavras. Só gestos e carinho, e ela desembaraça os cabelos negros, grossos e lindos daquela pequena. Depois leva-a até sua cama e com beijo na testa diz “Durma com os anjos, sonhe comigo e não caia da cama”! Ganha um sorriso de volta, e no escuro, enquanto espera o sono vir, a menina recebe as lágrimas nos olhos. Aquelas foram as palavras que ouviu todos os dias por vinte e cinco anos antes de dormir, vindas na voz de mel de sua mãe. Não às ouvia a pouco mais de dois anos. O futuro daquelas palavras reencontrava existência agora. Seriam repetidas pela menina para outras pequenas meninas. Gentileza gera gentileza. Amor gera amor. Mais amor, por favor.

Outro dia de trabalho. A menina abre o armário, para colocar sua bolsa e pegar as provas que aplicará naquela tarde. Um chocolate a olha de volta. Pela marca e alto teor de cacau a menina já sabe quem o depositou ali. Uma amiga de trabalho. Gentileza gera gentileza. Amor. Saboreou o doce daquele amor de cacau, assim como sentiu o amor em cada fio de cabelo negro e no beijo de boa noite. O amor tinha gosto de shoyo naquele sorriso de seu jovem cozinheiro. O amor era brega e sutil naquele adesivo de coração alongado no papel de caderno. O amor era inocente e gratuito naqueles abraços nas pernas e barriga pelos corredores da escola. O amor era perfeito nos erros de grafia. O amor polvilhava a vida da menina. Todos os dias, em todas as coisas. O amor é tão mais do que se canta em verso e prosa.

Agora e menina sabia, que aqueles anos órfã, aqueles anos solteira, aqueles anos sozinha de várias formas, eram, dia a dia, cheios, muito cheios de amor. É o amor dos outros. É o amor do sol que nasce a cada dia. É o amor de cada xícara de chá que ela preparava com muito amor, para tomar enquanto divagava olhando a lua pela janela antes de dormir. É o amor que vinha em cada gota de chá que ela tomava, e em cada palavra que brotava de seus dedos. O chá entrava e as palavras saiam, noite a fora. Noite a dentro. Amanhã é dia dos namorados. Amanhã é dia de jogo de futebol. Amanhã muitas pessoas celebrarão o amor à sua maneira. E muitas outras chorarão ou tornar-se-ão amargas pela falta dele.

Não falta amor no mundo! Não falta amor na vida! Gentileza gera gentileza. Amor. Mais amor, por favor. Por si! Pelos outros. Pelo amor que há no mundo. E assim, Alice, Sofia, Clarice, Adriana, e todas as outras olharam para a menina de dentro para fora. E a menina se viu tão bem acompanhada. Por todos os seus livros, todos os seus chás, todos os seus amores. E agradeceu! E a cada vez que ela agradecia, o amor crescia, fruía, fluía. Que o amor seja a dois, a três, a todos, a um só. Que o amor seja verde e amarelo, ou rosa, ou vermelho, ou azul. Mas que seja verdadeiro. Puro. E que, antes de mais nada, seja amor. E assim, a menina, já em sua cama, findo mais um dia de trabalho, fechou o computador. Aquietou os dedos e as palavras que nasciam dele, e desejou a si e ao mundo, mais amor.

2 thoughts on “O Dia do Amor

  1. Senti um mesmo certo incômodo já notado na leitura de outro texto, aquele da menina que tá num ponto de venda de móveis e começa a se lembrar das experiências de fabricação de peças rústicas com o avô, que é o seguinte: há tanta intimidade entre o narrador e a personagem que temos uma inevitável impressão de que se tratam da mesma pessoa. Isso não é um problema em si, isso de ser/aparentar ser personagem do próprio conto. A questão é a transposição para a terceira pessoa que fica parecendo forçada, pois i) o narrador não tem outros personagens para dar conta de seus aspectos emocionais e psicológicos (seria o caso, por exemplo, se houvesse algum comentário a respeito de uma disposição de espírito mais íntima dos sobrinhos) e ii) as disposições acerca do estado de espírito e emocional da personagem principal não são especulativas e sim enunciativas e assim se torna dispensável uma voz externa para conduzi-las. Neste caso, a solução para dar mais independência à personagem seria um texto em primeira pessoa onde aquela primeira intimidade a que me referi seria transferida do eixo narrador-personagem para o eixo personagem-leitor. Além disso, a eliminação de um elemento sem função bem definida (no caso, o narrador em terceira pessoa) poderia “limpar” o processo da leitura. É claro que isso tudo só faz sentido se tomarmos este conto como elemento independente e eu não sei se é esta a proposta. Abraços.

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