Eu leio

Eu leio. Verbo intransitivo. Eu leio tudo, desde que aprendi a ler. Leio placa, leio manual, leio o tubo da pasta de dente enquanto os escovo, e leio a caixa de cereal enquanto tomo café. Eu leio Termos & Condições, eu leio os manuais e as instruções, eu leio regra de jogo de tabuleiro. Eu leio antes de instalar, leio antes de usar, leio antes de dormir, leio no transito, leio na fila. Leio enquanto espero. Talvez por isso mesmo eu leia. Eu leio enquanto espero, mas enquanto eu espero o que? Eu leio enquanto espero a fila do banco andar, a sopa cozinhar no fogo, e o download carregar. Leio as coisas pequenas e os grandes romances. Leio contos, leio trilogias, leio épicos, leio blogs, leio poesia.

Porque leio tanto? Ler para mim é como existir, como respirar. Só não leio se estiver de olhos fechados. Às vezes não ouço tudo. Às vezes as pessoas estão dizendo algo, e a mente se afasta. Talvez numa aula longa, numa palestra que perdeu o sentido, numa reunião na qual não há novidades ou numa conversa quando o amigo repete a história. Não deixo de ouvir por mal, mas às vezes a mente escapa. Os olhos nunca. Mesmo quando está tudo desfocado, mesmo quando pareço olhar e não ver, inconscientemente, tudo é lido. Nem sempre tenho noção de que estou lendo. Até ler de novo, consciente, e perceber que já havia lido tudo aquilo, e pior, ou melhor, me recordo. Não sei porque, nem pra que, mas as palavras tem essa conexão comigo. Às vezes esqueço que li, mas se bater os olhos na primeira linha, me vem à mente as demais palavras.

É tão natural, nem percebo o quanto leio, mas leio como respiro. Às vezes leio até de olhos fechados, quando não leio com os olhos, mas repasso em minha mente as palavras. Um dia descobri que isso não é ler, é escrever. Esses intensos e enormes diálogos que minha mente tem com ela mesma. Essa digestão e rearrumação interna das palavras, compondo-as à sua própria maneira, inserindo as próprias opiniões sobre cada outra palavra lida. Eu achava que isso era ler também. Todos os dias eu falava. Fazia um resumo, uma apresentação oral, desse rearranjo cerebral. Um dia perdi minha ouvinte. Logo ela, que era quem falava, e os outros que eram seus ouvintes. Tantos! Ela nunca acreditou que era realmente ouvida. Talvez em parte porque em casa ela era ouvinte. Uma paciência inesgotável para ouvir, um amor pela conversa, pelo diálogo, pela palavra. Só que as dela eram musicadas. Sempre. Mesmo sua risada era música.

Mas e quanto ao meu rearranjo? O que fazer desse redemoinho interno, com essas várias vozes, que de alguma forma me pertencem todas, e que ao mesmo tempo pertencem em parte a ela, em parte a tantos outros que formaram esse redemoinho ano a ano dentro de mim? Um dia eu percebi que podia falar com os dedos. Talvez o uso moderno das mensagens escritas usadas no celular tenha me ajudado. Hoje em dia falo muito mais com os dedos do que com a boca. Embora ela não perca uma oportunidade. E foi assim que eu descobri que escrever é ler. Eu leio o mundo. E tento abraça-lo com as pernas. Só que ele é muito grande, e o redemoinho começa a vazar.

Vazar. Sim, depois que eu perdi minha ouvinte eu vazei! Vazei por todos os lados e de todas as formas. Vazei em lágrimas. Esvaziei o pensamento. Envazei as palavras. E ai doeu! E ao vazar, eu escrevi. Mas na verdade eu não escrevo para escrever. Eu não escrevo para você ler. Eu leio! E na falta de um ouvinte que contemple minha leitura, eu aprendi a deixar a porta aberta. Não precisa entrar. Mas se quiser entrar, não precisa bater. É só ler.

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