A menina, velha mulher

A menina já não era tão menina assim. Alguns dias se sentia muito velha, outros, nova demais. Na verdade, ela era, como todas as outras, dona de um coração de menina, daqueles que acordam felizes, só porque faz sol. Era também dona de um corpo de mulher, daqueles que as fazem se descabelar na hora de escolher uma roupa e chamam uma atenção que às vezes é bem-vinda, e em outras odiada. Era também dona de um espírito e alma de velha. Daqueles capazes de passar horas procurando um pelo em ovo, só para achar, eventualmente, não um pelo, mas uma pluma, coladinha na frágil casca, e se lembrar que não importa quem veio primeiro, o ovo o galinha, importa, que a galinha também era fêmea, mesmo que o ovo nem sempre o seja, e isso a faz considerar a galinha primeiro, primeira.

Era aquela hora. Uma hora desconhecida pelos seres do gênero masculino. Uma hora tão feminina, que faltam palavras para descrevê-la, embora sobre sentimento. Assim como às mulheres, às vezes lhes faltam palavras, mas sempre sobram sentimentos. Nessa hora o carro é quente, o ônibus é cheio, o trânsito é barulhento. O calor daqueles meios de transporte contrasta com a leve brisa que a noite vem trazendo, e a menina arrepia, apesar de suar de calor. Naquela hora o estômago ronca de fome, mas a boca azeda, e o enjoo faz a vontade de comer ir embora.

A menina olha para o céu. Ele ainda é azul. Não azul claro, como no amanhecer, mas um azul hortênsia, como a flor, claro, porém profundo. O mundo, entretanto, já é tomado de sombras, as silhuetas das árvores já são formas pretas contrastando com o ainda azul do céu. E há um brilho que beira o rosa e é também dourado, de um sol que já não se vê. E bonito, e triste. A menina olha para o céu, vê um quarto de lua minguante, prateada, começando a se apoderar de seu céu noturno, seu céu feminino. A lua já brilha, embora ainda não seja exatamente noite. E eis que de repente, não mais do que de repente, lá está ela, uma pequena estrela a fazer companhia a sua lua, como mãe e filha, duas mulheres no céu. A menina suspira, sem saber porque sofre. E, ao mesmo tempo já sabe, é a hora da estrela.

O sinal abriu e a menina mulher tem que dirigir, fluir na correnteza do trânsito e chegar em casa. Chegar em casa para quê? O que a espera depois da hora da estrela? Dizem que o crepúsculo é a hora do predador, pois as presas não veem bem quando ainda não é noite, mas também não é mais dia. Para a menina isso não ajudava em nada, pois as mulheres são tanto presa quanto predadoras. Depende do dia, do sol, da lua. Mas a hora da estrela, era a hora em que a menina, a mulher e a velha se encontravam. O coração puro da menina via naquele contraste de cores, no brilho da lua, a magia do mundo. E imaginava todos os contos de fadas, onde os amores são possíveis, mesmo quando impossíveis. E a mulher suspirava, e se cansava ao saber que teria que se decidir presa ou predadora, com o cair da noite. Já a velha ria um riso amargo, e se lembrava de todas as dores do mundo, pois com a noite cessam os afazeres e afloram as emoções. E a hora da estrela é a hora da melancolia.

Nessa hora as meninas, não apenas essa, mas todas, têm, a cada dia, de decidir se porão a mesa para o jantar da família ou se correrão, fugirão para o ar puro das montanhas mais altas e distantes, ou para o ventos das praias mais ermas e solitárias. Todas? Sim, todas. Sejam elas meninas, mulheres ou velhas, nessa hora, a cada dia, existe uma decisão sendo tomada. Em cada coração, cada corpo, cada espírito. E durante muitos e muitos anos a menina, que não era tão menina, e nem tão velha, já tinha posto muitas e muitas mesas. Não ovos, mas mesas. Mas em sua lógica os ovos vinham em segundo. Ou talvez em terceiro, e as mesas em segundo. E servido muitos jantares. Não, a menina não tinha marido ou filhos esperando aquele jantar, mas já teve, algum dia, mãe, pai, avô, avó, família.

Só que a menina já tinha fugido também. Justamente por não ter marido e filhos, pode fugir sem que ninguém desse por sua falta. E foi até o alto de montanhas, e desceu até a onde a maré marca a areia. Respirou o vento do mar e o ar das folhas das árvores. E descobriu, que mesmo lá, na distância, mesmo lá, existem maridos, filhos, família, ovos. E que eles jantam. E quando não há ninguém? Na selva urbana, em seu caixote de concreto, a menina janta. Sim, pois apesar dos calafrios do dia quente que decai em noite fresca, e apesar da fome do corpo e do enjoo da alma, ela janta. Mesmo sozinha, ela janta. E corre, e nada, e contempla o mundo da janela. E a vida continua. Seja pelo ovo, ou pela galinha.

E nessas horas, nas horas da estrela, a menina queria ter uma máquina. Sim, uma máquina que superasse o tempo e o espaço, e resolvesse as mazelas do mundo, driblasse a desgraça. Nessas horas ela gostaria de caminhar sobre as flores amarelas do ipê. Ela gostaria de achar, ou talvez só de procurar, um amor. Nessas horas ela, menina, mulher ou velha, se sente princesa. E então ela se lembra, do seu remédio, do seu antídoto. Da sua música e dos seus livros. Sim, ela é menina, mas também são meninas as Clarices e as Cecílias, as Adrianas e as Alices. E todas elas entendem as angústias do ovo, da máquina, do amor, do mundo, da hora da estrela. E a menina cultiva, como quem procura um amor, sua felicidade clandestina. Aquela, que vem na hora da estrela, quando ela está sozinha. E ela agradece à Elis por sua reza e à Cassia por sua malandragem, que a permitem ser menina, mulher e velha. E ela se lembra de que a vida é querida, mesmo quando a felicidade é clandestina.

E a velha ri, a mulher chora e a menina ama muito a vida querida, pois nela existem também os Toms, Tims, Chicos, Vinícius, Samueis, Fernandos, Manoeis, Joãos, todos os Johns, Chets, Miles, que sabem que é preciso ter cuidado na hora da estrela. E fazem graça, pois sabem que as mulheres são vinte duas em uma. São garotas de Ipanema, nacionais, ou funny valentines. São como joaninhas no jardim. São como a galinha, que bota o ovo. E também bota a mesa do jantar.  E apesar de tentar, eles nunca às compreenderão. E elas contemplarão o mundo como velhas que riem com amargura de tudo o que já foi, como uma onda no mar. E serão mulheres de corpos metamórficos, como mutantes, angustiadas, presas e predadoras. E serão meninas de coração puro, que procuram um amor. Mas nunca entenderão que a hora da estrela, quando a lua aparece no céu, é delas. Só delas. E que nessas horas, apesar de tudo, a vida é querida.

Em alguns dias as Alices mudam de tamanho, seguem coelhos, fogem de seus mundos, atravessam barreiras, viajam no vento, em furacões. Encontram e são encontradas. Dançam, rezam, passam. E a menina vive, sua vida querida, sabendo que sempre se angustiará na hora da estrela. E que não adianta fugir. Que nenhuma máquina resolverá seus problemas.  Nem mesmo o do ovo e da galinha. Que nenhum homem ou mulher arrumará seu mundo, consertando-o depois de todos os pequenos e grandes estragos dos anos. Mas que ela mesma pode ser sua própria arrumadora. Afinal, mesmo quando a mulher está em metamorfose, e enquanto a velha contempla o mundo, entre rezas e malandragens, a menina tem um coração puro. E que sua alma não é pequena. E ela tem essa mania de explicação. Um amor pelas palavras. E enquanto ela procura por um amor, na verdade, ela encontra palavras. E enquanto ela procura pelas palavras certas, encontra muito amor, de vários tipos, certos ou errados. Longos ou breves. Que sejam, então, eternos, enquanto durem. Mesmo que durem só uma hora, a hora da estrela.

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