O banco vermelho

A menina, agora já mulher, andava pelo shopping, tão próximo de sua nova casa, e olhava os móveis. Muito bonitos, muito caros, quase sempre feitos de MDF ou outro material moderno. Moderno, leve, e frágil. Ela gostava da beleza daqueles móveis, claro, quem não gosta de coisas novas e brilhantes. O que a preocupava era se eles aguentariam. As coisas são tão frágeis. As pessoas também. Tudo quebra, descasca e se acaba. O mundo moderno propicia que vejamos a exaustão dos materiais a olho nu e em poucos anos. As amigas, tias e outras pessoas diriam que isso é normal. Quando estragar você compra outro. A menina entendia esse ciclo de consumismo moderno. E o que a incomodava mais não era a ideia de comprar novos depois de um certo tempo, isso era até um pensamento agradável, a necessidade de renovação se fazendo presente ciclicamente, para que a rotina não a fizesse se acomodar.

Mas a menina só conseguia se lembrar do banco de tampo vermelho. Esse banco jamais estaria naquele shopping. Ela conseguia sentir sob a palma a poeira grossa, que incluía fragmentos de metal e pó de madeira. Quantas vezes ela não passou a mão no estofado vermelho, de tal forma que o marrom ficasse em sua mão e o banco voltasse a ser vermelho. Ai ela se sentaria e limparia a mão no short. Um ato sem lógica, já que o short terminaria sujo de qualquer maneira. Hábitos. Hábitos são assim, manias, a gente faz, mesmo quando não tem sentido. Ela não se incomodava com o short sujo, nem com a aspereza daquela poeira grossa. Ela confiava naquele banco. Feito de madeira, que um dia tinha sido pintada de branco. Descascada e suja, a pintura já não era branca a anos. A menina nem sabia se tinha visto aquele branco de verdade algum dia, ou se era anterior a sua existência. O estofado era feito de plástico grosso, como lona de caminhão vermelha, pregada à pregos na madeira, segurando firme um recheio de estopa. Muitos pregos a vista. Pedaços de madeira descolorida, daquelas de dão farpa, crua, sem lixar, reforçando o banco.

Mais uma vitrine e a menina pensou que realmente jamais veria um banco daqueles de novo. Ele não caberia em seu pequeno e frágil apartamento. Ele pertenceria para sempre à sua memória, e àquela oficina onde foi criado, restaurado e utilizado tantas vezes, por tantos anos. Apesar de se assemelhar a um monstro de dr. Frankenstein, aquele banco era sólido, confiável e resistente. E duas coisas davam a menina aquele doce conforto sobre a segurança do banco: era de seu avô, e tudo que seu avô fazia, era feito para durar, e era remendado. Às vezes ele errava no cálculo, como qualquer ser humano, nessas horas ela se lembrava que ele era humano afinal de contas, mas ele sempre sabia como remendar, consertar. E ela aprendeu a confiar nas coisas consertadas mais do que nas novas. Não dava para saber quanto tempo ia durar algo novo. Não dava para calcular o nível de desgaste e pressão ao qual o móvel novo racharia e seria inutilizado.

Mas aquele banco já estava ali, tão quebrado, tão usado, porém feito de matérias de verdade, e reforçado, que ela sabia exatamente que ele era útil de fato. E suportaria seu peso. Quantas lâmpadas foram trocadas em pé sobre esse banco, quantas soldas foram feitas sentadas nesse banco? Incontáveis. E lá esteve ele, sempre que alguém precisou dele.

Ela se lembrou de acender a luz da oficina já tarde da noite, e trazer o banco, quase de seu tamanho, para trocar uma lâmpada antes de dormir, ainda menina. E da voz, a maravilhosa voz de sua mãe, dizendo para ter cuidado com as farpas, o banco era muito rústico. Ela ria no escuro do receio da mãe. Crescera naquela oficina, na barra das calças daquele que fabricava essas mágicas. Sabia exatamente onde pegar para trazer o banco sem que nenhuma farpa penetrasse sua pele. O risco existia, claro. A madeira não era lixada em muitas partes. Sem contar os inúmeros pregos aparentes, batidos, entortados para segurar o estofado. Ela conhecia a cabeça de cada um daqueles pregos. A luz da oficina ficava lá dentro. Depois de devolver o banco, intacta, ela decorava onde estavam as raspas de metal, as farpas de madeira no chão, as ferramentas sobre a mesa, e vinha no escuro, como uma equilibrista, de pés descalços e camisola, se esgueirando novamente até seu quarto, onde testava a nova lâmpada.

Sua mãe entraria para lhe mandar apagar aquela luz, parar com aquela agitação noturna e ir dormir. Veria os pés sujos e lhe repreenderia por ter ido até a oficina do avô descalça. Diria que as coisas lá eram perigosas, que bastava a menina ter essas iniciativas, essa mania de trocar uma lâmpada já tarde da noite, não poderia esperar o sol raiar? Ela era pequena, precisava mesmo de carregar banco pra lá e pra cá, descalça, já de camisola? A menina diria que da próxima vez esperaria o dia raiar. Lavaria os pés antes de dormir e sentiria um orgulho temendo na hora de apagar sua luz, sua lâmpada, sua aventura conquistada. Apesar dos pés e mãos limpos, ela sentiria aquele cheiro de metal e madeira, óleo e estopa, já entre as cobertas, e se sentiria confiante. Feliz de ser tão esdruxula que podia se vangloriar de passear de camisola por entre aquele espaço que não deveria ser seu, mas era, cada cantinho, cada nicho.

A menina já tinha desistido das vitrines, sentada num banco, tomava um sorvete de pistache. Pistache, aquele que aprendeu a tomar com o avô. Olha de novo a sua volta. Um shopping inteiro para móveis. Coisas descartáveis, feitas para serem descartáveis. As pessoas não tinham ideia mais do que era a cultura do conserto. Da fabricação própria. Ela admirava seus novos móveis, sua casa branquinha e cheirosa. Se sentia tão confortável com a lavanda quanto com a graxa. Mas tudo parecia tão frágil. A vantagem de um bom prego aparente, é a certeza de que ali há um reforço. Foi quebrado já, testado já, e resistiu. O novo, brilhante, esconde as falhas, e nunca se sabe quando poderá desabar.

Para conviver com aqueles móveis frágeis a menina tinha que ser a mocinha que sua avó sempre quis. Sentar-se direito. Nada de malabarismos. Ela se lembrou das pernas-de-pau que o avô fez na época em que ela entrou pro circo. Sim, a menina já foi circense. E riu, com seu sorvete na mão, lembrando da alegria que compartilhava com seu avô por fazer graça no meio da sua oficina. Ela fazia questão de alegrá-lo com seus malabarismos, uma azaleia de jardim num copo de geleia, entre a furadeira e a lixa, para ser descoberta no dia seguinte. Um sorvete de pistache tomado com as mãos sujas de óleo depois de uma manhã de domingo trocando as velas do Monza. Aquele mundo lindo de MDF branco jamais entenderia esses sentimentos. Esses sentimentos só poderiam ser compreendidos pelo banco remendado.

A menina se levantou, comprou uma garrafa de água de vidro roxo, mas não comprou móveis. E foi para casa, pensando em como seria ter por perto aquele banco vermelho e branco, com todos os seus pregos e farpas. Confiável, disposto à seus malabarismos e trocas de lâmpada à meia-noite. Como poderia ela acatar o conselho da mãe e ficar no escuro até o dia seguinte? Mas é noite, você vai dormir. Precisa trocar a lâmpada ainda hoje para o que? Ela ria, e dava boa noite. Para ler, é claro. Como iria ela ter sonhos bons, se não pudesse viajar pelo mundo antes de dormir? Fazendo seu próprio caminho, sua própria luz.

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