Os doze Reis

A menina tem onze primos. Hoje, na verdade, tem muito mais. Ganhou primos sobrinhos e primos maridos, primas mulheres, mas ela tem onze primos. São doze. Seis meninas e seis meninos. Em seus devaneios cabalísticos a menina sempre achou que isso significava algo, embora nunca soube dizer o que. Primos mais velhos, primos mais novos, aqueles que cuidavam dela e aqueles de quem ela cuidava. A menina era filha da tia. A Tia. Letra maiúscula. Tios são quatro, mas A Tia era uma. Viviam num castelo, ou assim acreditava a menina. Na verdade, só ela, dentre os doze, conhecia a magia daquele lugar. Não, isso não é verdade! Todos conheciam a magia daquele lugar. Durante alguns anos aquele foi o mais mágico dos lugares da Terra. Mas ela assistia à transformação, e os outros não. Para eles era sempre daquela forma, mas ela conhecia dois castelos muito diferentes.

Durante a semana aquele era um castelo de adultos exigentes e rígidos. Horários sempre foram cumpridos. Durante a semana a música era ouvida baixa e os livros lidos altos. Durante a semana os passos eram abafados por meias e pantufas, chinelos de tecido. Os adultos falavam baixo e se comia sopa a noite sempre. Não é que a menina não gostasse, ela, na verdade, só conhecia a vida assim, e achava que todos viviam da mesma forma. As tarefas domésticas, escolares e os aprendizados do avô ocupavam todo seu tempo. A família se dedicava a aprender, praticar e melhorar sempre. Entre botões pregados, frutas catadas no pomar, exercícios escolares, horas na cozinha como ajudante, e muitas horas de leituras a fio, silenciosas e em voz alta, assim a menina levava os cinco dias que a separavam da transformação. Durante a semana aquela era uma casa de adultos. Havia sempre muita magia, mas era como viver em um colégio interno, nunca o ensino terminava. A menina gostava muito disso, na verdade. Apesar de se cansar às vezes. Durante a semana os sons eram poucos dentro de casa. La fora o som dos passarinhos predominava, fora os dias de jardineiro, quando a máquina de cortar a grama e a bomba da piscina soavam como dragões rondando o castelo. Às noites eram muito escuras. Os cantos se empoeiravam. Mas a sexta-feira à noite chegava.

E com ela vinham todas aquelas luzes externas que não eram acessas durante a semana. O tampo da vitrola era levantado, e o cheiro da sopa dava lugar ao cheiro de vários sanduiches feitos na chapa ao mesmo tempo. O único dragão soando era o liquidificador que batia duas ou três vezes copos cheios de leite com Nescau. As cadeiras da mesa de jantar eram apertadas e muitos banquinhos apareciam de lugares inesperados, e onde normalmente cabiam quatro, de repente cabiam dezesseis. E em meio a todas aquelas vozes e cheiros novos, havia muito riso, e a casa era definitivamente castelo, e era das crianças. Os adultos ocupavam seus recantos, nas sombras confortáveis do descanso semanal, e a menina se fazia princesa do castelo, em meio a seus príncipes e princesas, primos-irmãos. E se desdobrava para que todos tivessem suas vontades atendidas. Ao mesmo tempo que se sentia mais princesa do que os outros, com algum aval do Rei, a Rainha mãe fazia questão que ela fosse também anfitriã e responsável pelos demais.

Os mais velhos viam filmes que lhe davam medo, e assim mesmo ela assistia de debaixo das cobertas, por entre os dedos que cobriam o rosto. E faziam brincadeiras que a maravilhavam, correndo pelo jardim, ao sol, brincando com espadas feitas pelo rei, e tinham até armas de espoleta, que faziam sons inacreditáveis. Inúmeras competições começavam, e a piscina era o centro das atenções. Conquistavam o jardim, subiam nas árvores, corriam, comiam frutas, pescavam no lago, inventavam brincadeiras, jogavam mamonas e bete. Jogos de tabuleiro e vídeo games. Jogos inventados. Com os de sua idade brincava de faz-de-conta, as meninas ocupavam o closet da Rainha, bagunçavam todos os quartos, espalhavam suas barbies por cada recanto do castelo. Brigavam com seu primo-irmão, que queria atenção e se revoltava quando as meninas de sua idade viravam princesas ou sereias, que em nado sincronizado o excluíam com a crueldade infantil de seu mundo. E a menina, agora princesa, insistia que ele era príncipe, querendo ou não, pois estavam todos no castelo do Rei, e dele eram descendentes.

Ajudava a Tia Rainha a cuidar dos mais novos, inventava brincadeiras para distraí-los, ensinava-os a respeitar o Rei e a Rainha, verificando, com ordens mandonas que só mesmo a princesa da casa se permitiria, se tinham dado o beijo de boa noite nos avós. As camas eram afastadas, os colchões jogados no chão, para caberem em menos colchões mais primos. E entre cafunés coletivos, e quantidades absurdas de gibis da Turma da Mônica, livros, infantis ou não, balas escondidas embaixo da cama e ataques de riso infindáveis que geravam ataques culposos de asma, os primos dormiam. Era trancadas as grades que contiam os sonâmbulos de caírem pelas escadas durante a noite, e a porta de mola da cozinha rangia sobre os ataques daqueles que assaltavam a geladeira na madrugada.

E aos sábados e domingos a música era ouvida alta e os livros lidos baixos. E os cheiros das frutas do jardim enchiam o interior da casa, com todo aquele suco de manga e as jabuticabas em bacias de gelo. As sopas viravam massas, churrascos e feijoadas, e os tios, Reis e Rainhas, chegavam. Os sorvetes se espelhavam para todos os lados, geralmente acompanhados de um gibi. E o castelo era infantil, apesar dos adultos. Os sambas e o jazz eram tamborilados nas pontas dos dedos do Rei, chorados em lágrimas de alegria, emoção e tristeza da Rainha mãe, e cantados na voz potente e pouco ouvida da Rainha Tia.

Na páscoa caçadas homéricas aos ovos preenchiam o ar da manhã, e os Natais eram esperados como só mesmo crianças que conhecem um castelo podem saber. A casa ganhava cheiro de doces, e a pureza dos ramos de cipreste podados da própria cerca do jardim, e cuidadosamente encaixados nas armações, geringonças únicas do Rei, para virarem uma árvore de Natal viva, cheirosa e iluminada. E se fosse inverno, a lareira seria acesa, e a Rainha contaria histórias de terror, que fariam os mais novos fugirem de volta à suas casas, e os sobreviventes dormirem grudados. E tínhamos lobo-mal, e fantasmas, serem mágicos, e insetos loucos. Tudo sobre o olhar eterno da Rainha mãe de todos, sobre o console da lareira. Se fosse verão triplicaria a quantidade de sorvetes e de toalhas molhadas. E as brincadeiras na piscina seriam imbatíveis.

E a princesa tomava suas liberdades, e ligava desde cedo para aqueles que ainda não estivessem lá, convocando seus primos-irmão a irem fazer a magia acontecer. E ligava também para os amigos desses, gostassem eles ou não, e planejava festas surpresa, enchia balões e fazia decorações infantis caseiras. E entre vantagem e desdobramentos, tudo o que a menina queria era a companhia de todos eles, e a transformação que ela gerava. Pois no domingo à noite, quando iam todos embora, era ela, menina-princesa, que via o Rei e Rainhas, descerem de seus tronos, e catarem toalhas molhadas, e copos sujos de sorvete. Lavarem pilhas de louças sujas, e catarem montanhas de gibis. E ela corria, tentando se adiantar, tentando fazer por eles, para que não se chateassem, e para que a magia pudesse acontecer de novo a cada fim de semana. E quando se sentavam, cansados, para tomar a sopa, de banho tomado, a casa já era escura e em silêncio. A transformação já feita, e os ares da segunda-feira já se adiantando sobre o domingo, eles reclamariam, conquistando novamente o castelo, transformando-o de volta num lar de adultos, e falariam da bagunça, em tom cansado. E com a colher de sopa na boca, vendo-os só com o cantinho dos olhos, a menina via que apesar das reclamações seus olhos sorriam com o maior amor do mundo. E naqueles olhares iria repousar a magia que voltaria a emanar deles no próximo final de semana. E todo aquele orgulho de sua família enchia o peito da menina, que sabia, assim como sabiam os Reis e Rainhas, que era hora de tirar sua coroa, e viver outra semana de aprendizados rígidos, até que os sons e cheiros mudassem e a mágica emanasse entre eles novamente.

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