Remédio na ferida

A menina já tinha passado por muitas tempestades, e essas não eram em copos d’água. Fazia anos que ela tinha parado de murmurar ou reclamar. Sabia que essa vida não era um ensaio nem um treinamento, era a coisa séria, e a ela cabia agir conforme cada situação. Fugir ou desistir estavam fora de cogitação, ela tinha de ser forte por si mesma e pelos outros. Foi forte especialmente por sua mãe. Tinha muito medo de que sua mãe algum dia percebesse o quão frágil ela mesma poderia ser, e sucumbisse. Contudo estava extremamente cansada, gostaria que a mãe também percebesse que não era a única sofredora ali, e que força não é sinônimo de apatia. Só porque a menina continuava com todas as obrigações da melhor forma possível não significava que não fosse difícil pra ela, que não sofresse. Apenas aprendeu a guardar as lágrimas para o próprio travesseiro, a amanhecer resignada a viver cada dia por ela mesma e pelos outros. Já não sabia por quantos anos viveria assim. Viveu cerca de oito anos, os primeiros de sua vida adulta, assim, em meio a tempestade. Nadando em plena ressaca, tomando um caldo atrás do outro, antes de recuperar o folego, mas seguia nadando. Agradecia todos os dias aos ensinamentos do avô, que proclamara que saber nadar era uma questão de sobrevivência, e lhe tirou as boias de plástico antes mesmo do primeiro ano de vida.

Continuava nadando, tão determinada que mal sentia as próprias câimbras. Havia se tornado um tanto quanto insensível às dores consideradas menores e por isso muito dura e exigente. Sabia que se não fosse assim não daria conta, sabia que era injusto com aqueles a sua volta, mas se relaxasse sucumbiria. E assim seguia nadando, em meio a ondas tão altas que jamais teria se imaginado capaz de tanto. Fato é que nunca havia questionado as próprias capacidades. Simplesmente enfrentava cada desafio, sem pensar no tamanho ou duração dele. Os problemas nunca foram vistos pela menina como matéria de profunda reflexão, e sim de solução. O máximo de reflexão que se permitia era para buscar a solução. O resto era reflexo. E assim ela seguia a vida, vivendo muito mais por reação do que por ação. Metódica, cheia de planos e metas, se comprometia com algo e fazia, sem descansar, sem dormir direito, sem comer direito, enquanto aquela meta não estivesse cumprida e pudesse fazer um tique em sua lista e passar para a próxima. Sempre disfarçando o cansaço e a dor, nunca querendo que os outros soubessem o quanto o mundo lhe pesava nos ombros, especialmente a mãe. Como a mãe lhe preocupava. Não podia sonhar que a menina já tinha chegado ao ponto de chorar de sono, em silêncio, só a água lhe lavando o rosto, por conta de cinco minutos a mais acordada para terminar uma tarefa.

Ai um dia, em meio ao maremoto, sua mãe se foi. Assim, como um sopro de vida, como a pena de um pássaro, como um assovio que acaba. No início, a menina lutou. Viu a enfermidade da mãe como apenas mais um maremoto. Já estava tão acostumada, seu corpo já se enrijecia com as notícias médicas. Já tinha aprendido a ler os médicos nesse ponto de sua vida. Não estudou nada na área de saúde, mas acompanhou todos os seus entes queridos, inclusive o namorado da época, que passou por graves enfermidades ao longo desses oito anos. Entrava e saía de hospitais com mais naturalidade que seus funcionários. Já conhecia as rotinas, já sabia o que tinha que falar para alcançar cada resultado. Veja bem, a menina era leitora ávida. Lia livros e lia a vida. Gostava, desde a tenra infância, de se afastar dos parquinhos, subir num árvore, e assistir aos colegas. Guardava na memória aqueles padrões de interações. Como as pessoas se comportavam e como esperavam que ela se comportasse. Quando agradava era conscientemente, quando desagradava também. Às vezes se sentia culpada, às vezes não, tudo dependia de o quão queridas eram as pessoas desapontadas. Não podia desapontar o avô. Ele tinha sido seu céu e seu chão a vida toda. Ele a ensinara a nadar. E agora estava ali, nadando em meio a tempestade que tinha começado com sua enfermidade e que parecia não acabar nunca mais.

Já perdera o avô, o que significava que já havia perdido tudo. E perdera também o pai e a avó. Tudo isso sem parar de nadar, ajudando, estudando, trabalhando, coordenando, três mudanças de casa, a venda do apartamento do pai, as contas, nadando, sempre nadando naquele mar de ressaca. E eis que agora perdera a mãe também. Porque continuar a ser forte então? Não era por ela que havia escondido o choro, segurado as lagrimas, trabalhado, estudado, nadado sem folego, depois de cada caldo? E agora, sabia que se parasse de nadar imediatamente sucumbiria. Como uma maratonista que já havia superado todos os seus limites tantas vezes que já perdera a conta, ela sabia que podia diminuir o ritmo, mas que não podia parar, ou seu corpo não aguentaria. E assim o fez, reduziu a marcha, mas seguiu, sem rumo, à deriva. Achou uma tábua. Não era justo, digno e nem válido fazer o que fez ao achar aquela tábua de salvação, mas já estava fraca demais para fazer diferente. E assim, a menina transformou um desgastado namoro à distância em tábua de salvação.

Deitou sobre a tábua, e deixou o sol secar seus cabelos, e deixou seus pulmões reaprenderem a respirar. Se viu quebrada. Doente, estilhaçada, como uma madeira que é jogada no mar, e bate contra as pedras repetidas vezes. Já não tinha mais uma forma distinguível. O sol ajudava, mas também doía. Tudo doía e lhe faltavam forças pra seguir. Em cima da tábua ela ficou à deriva. Sabia que quanto mais tempo ali ficasse, mais estaria se condenando, mas não conseguia voltar para as águas ainda revoltas que à aguardavam. A tempestade parara, mas o céu ainda era negro. Mesmo em cima de sua condenada tábua, levou caldos, se molhou toda e parecia que nunca secaria novamente. E seguiu à deriva por meses, só enfraquecendo, enquanto o mundo achava que aquilo era a calmaria e que ela estava se reestabelecendo. Reforçava a opinião errônea. Não queria que a percebessem quebrada. Tinha horror a pena alheia. E não queria ser motivo de preocupação. Sabia que todos os olhos dos entes queridos estavam sobre ela, e fingia não ver a própria preocupação refletida em cada um deles. Todos tão parecidos com os olhos de seu avô. Não queria que o avô, mesmo de lá do céu, visse seu estado, inerte. Inerte, na concepção partilhada da menina e do avô, era pior do que morto. Não se podia deixar ficar inerte, tinha que lutar, nadar, sobreviver. Mas fingia estar fazendo tudo isso. Sabia que não, mas estava tão cansada. E mais, muito mais do que cansada, estava desesperançosa. Já não tinha por quem fazer, e não se sentia importante o suficiente para fazer para si mesma.

E aí, quando começou a se mexer novamente em cima da tábua, levantou a cabeça e olhou para os lados procurando o horizonte, botou as mãos na água e ensaiou uma remada, nesse momento a tábua sentiu, talvez tenha percebido que ela estava começando a tomar iniciativa de novo. E a tábua naufragou.  Rápida como um raio, assim que a menina esticou os músculos, a tábua afundou, para nunca mais ser vista nem sentida sob os pés. Obviamente, a menina levou um caldo, mais um. Jogada inesperadamente na água, seu primeiro impulso foi o pânico. Teve medo de que a tempestade continuasse. Mas logo após os primeiros momentos nadando, ela se lembrou que era exímia nadadora, e que estava perdendo um tempo tremendo em cima daquela tábua. E voltou a nadar. Teve que escolher rapidamente uma direção, meio às cegas, antes que se cansasse mais, mas escolheu, e decidiu que certa ou errada, era melhor nadar do que continuar ali. E nadou. Por meses a menina nadou, sempre incerta do rumo, mas sabendo que naquele momento a força era mais importante que a direção. Retomou o controle se seu corpo inerte, e seguiu.

Um dia, ainda nadando, a menina percebeu que o céu não estava mais escuro, e que ela não estava tomando caldos. Estava apenas nadando ao sol, como qualquer outra pessoa. Não era tão fácil como aquela inércia, mas era infinitamente mais alegre. Começou a perceber que já não estava tão longe da costa e perdida, pois havia outras pessoas nadando, remando, navegando. Algumas com mais dificuldade, outras com menos. Via os machucados dos outros, as bagagem que arrastavam enquanto nadavam, e se viu parte do mundo. Cada qual com seu jeito de nadar, com seu histórico de caldos. E quando menos esperava, estava entre amigos, antigos e novos. “Por que aquelas pessoas novas viravam amigos?”, ela se perguntava. Não fazia sentido para si. Por que alguém ia querer se aproximar de uma naufraga esfarrapada? Entretanto algumas pessoas declaravam, assim, inusitadamente, que estavam espantadas com a sua boa natação, e acompanhavam, alguns por mais tempo, outros por menos, dizendo que vê-la nadar os estimulava a seguir nadando também.

A princípio a menina teve certeza de que estavam sendo hilários, e que, obviamente, aqueles elogios advinham da mais pura pena. Aos poucos se permitiu conversar com algumas dessas pessoas e viu que elas se sentiam muito mais fragilizadas, independentemente do tamanho de seus próprios machucados ou caldos. E com muita parcimônia a princípio, e com mais veracidade e liberdade depois, a menina começou a compartilhar sua história. Tinha muito receio de atrair pena. Não suportava isso, mas aos poucos passou a considerar genuína aquela interação com outros nadadores. Talvez até agora seja uma enorme ingenuidade de sua parte crer que não haja a tal pena, mas se há, aprenderam a disfarçar suficientemente bem.

E com mais cuidado e parcimônia, conforme a história do seu naufrágio ia reaparecendo, emergindo das profundezas de suas lágrimas, mais pessoas se aproximavam. A menina achou a terra. Ou seria uma ilha? Não houve tempo ainda para ela decidir se no dia que sair de lá será a nado ou não, mas nadar já não lhe assusta. Poucas coisas a assustam. Fez sua cabana de naufraga sobrevivente, aprendeu a fazer fogo, e descobriu que outras pessoas gostam de frequentar sua ilha. O 1uão curioso e inesperado isso é, a menina ainda não conseguiu medir. Muitas vezes, antes de dormir, ela olha as estrelas e estremece, sem saber se está sonhando ou se realmente chegou em algum lugar depois da tormenta.

O que lhe parece o mais impossível são esses seres curiosos, que parecem ter sentimentos positivos à seu respeito. Entre passarinhos e passarinhas, borboletas e seres humanos. São tão curiosos esses seres, eles emanam carinho. E cada gota de carinho que respinga na menina é como o remédio na ferida. Arde, dói, assusta. Ela sabe que fará bem, mas que medo sente. Não foge, porque aprendeu a nadar quase ao mesmo tempo em que aprendeu a andar. E sabe, que se sua ilha for de mentira, se nada passar de ilusão, ela pode seguir nadando. Se os antigos machucados já estarão cicatrizados ou não, e quantos novos haverá são perguntas com as quais ela aprendeu a não se preocupar. Algum machucados nunca cicatrizarão. Algumas cicatrizes serão eternas. O remédio que arde é o que cura, dizia seu avô. E a própria água do mar, salgada, arde na ferida, e cura. Ela nadará, hoje e sempre. Sob sol e sob tempestade, em mar calmo ou na ressaca. Ela nadará.

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