Alice

A menina se imaginava velha. Às vezes se sentia velha, às vezes só imaginava como seria quando fosse. Se imaginava contando para os netos sua ida ao País das Maravilhas. A menina era também Alice.

Ela cresceu num jardim. Grande, enorme para sua pouca idade, e, mesmo para os adultos, era desproporcional para a cidade onde vivia. Naquele jardim a menina plantou e colheu os mais doces frutos, as mais cheirosas ervas e os mais frescos vegetais. Naquele jardim, ela sonhou, chorou, leu, dormiu, caiu, correu e descobriu vários universos, debaixo de cada pedra, de cada casca de árvore, de cada folha. Ficou amiga de muitos animais e foi até convidada para o casamento das formigas, feito com as flores brancas das jabuticabeiras, uma vez.

Nesse jardim a menina aprendeu que existiam portas para estes outros universos, e às vezes se perdia entre eles. Um dia estava com os tatus-bolas, passeando debaixo das pedras, sendo senhora da chuva, entre samambaias e seixos rolados. Em outros, se perdia entre as folhas das árvores, comendo amoras ou chupando mangas. Algumas vezes levava algum convidado para passear em seu reino, e estes variavam entre amigos reais e imaginários, famílias de barbies ou personagens de livros, que a acompanhavam nas aventuras do dia.

Talvez por isso a menina não tenha estranhado no dia em que resolveu seguir o coelho toca a dentro. Não estava mais em seu jardim. Ele já não existia havia alguns anos. Ela estava perdida, como uma pena sendo levada pelo vento, só que esse vento era uma tempestade. E depois de anos se agarrando às velas de seu navio, controlando o curso de sua vida com punhos de aço, a menina foi. Simplesmente, foi. Levada sem controle pelo vento, e se viu diante da toca do coelho. Pulou. Pulou como uma Alice que sabe onde vai. Foi surpreendida por ser reconhecida no País das Maravilhas, e não pelo quão fantástico ele era. Ela conhecia a fantasia. E agora a fantasia conhecia Alice.

A menina parou. Levantou os olhos. Levantou-os do que? Estava lendo? Escrevendo? Dormindo? Sonhando? Em que momento a realidade e a fantasia tinham se mesclado? Tinham se mesclado? Ou sempre foram a mesma coisa? Aquela sensação de portas para os diversos universos se apoderava da menina fortemente, mais uma vez. Estaria ela em seu jardim? Ou na praça, no museu? O dia era noite e a noite era dia. Sua vida pulsava novamente. Ela abriu os olhos e se viu dez anos antes e dez anos depois. Tinha sobrevivido a sua guerra.

E como uma veterana, olhava o mundo novamente e se perguntava como podiam viver tão prosaicamente todos aqueles civis. E ao mesmo tempo era, ela mesma, a mais lúdica das criaturas. Será que ainda estava no País das Maravilhas? Será que simplesmente não tinha acordado? Seria aquele mais um truque? Não, ela só tinha achado o caminho de volta. E de repente, o vestido azul da Alice era parte de seu guarda-roupas real, e ao acordar, a menina percebia, dia após dia, que os sapatinhos vermelhos da Dorothy continuavam em seus pés. Ela era Alice. E o seu mundo era também o País das Maravilhas.

Como aqueles personagens se encaixavam nos dois mundos ainda era para ela um grande mistério, mas agora ela começa a conviver com Absolem ao mesmo tempo que ia ao trabalho, afinal, a menina era mulher. E se podia atender uma ligação de Absolem enquanto estava no trânsito, então talvez, somente talvez, a menina finalmente entendesse porque o coelho tinha tanta pressa. Estava correndo de algo? Ou em direção a algo? E porque havia permitido que Alice o seguisse, e caísse no País das Maravilhas? Teriam sido ordens da Rainha de Copas? Ou da Rainha Branca? Ou do Chapeleiro? Teriam sido ordens? Foi o coelho que levou Alice ao País das Maravilhas? Ou foi Alice que seguiu, inadvertidamente, o coelho?

Ou teria sido seu furacão, aquele que a transportava como uma pena, perdida, que a teria levado ao Mundo Mágico de Oz? Estava em Oz, então? Era o Mágico uma farsa? E a menina sorriu. Sim era! Tudo era uma farsa, uma grande mentira. Ela era a Mágica de Oz. E com que habilidade tinha feito com que todos acreditassem que era poderosa e poderia manter as trevas distantes, mesmo nos piores dias. Enquanto o reino se vangloriava e todos se divertiam nos jardins, Alice se lembrava de como havia matado seus monstros e vencido todas aquelas batalhas, apenas usando sua capacidade de fazer os outros acreditarem que ela era a Mágica. Quantas vezes a menina não se desesperou? Em quantas não desacreditou de tudo e todos.

Mas como deixar o reino sofrendo? Como deixar o reino ver que ela sofria? Alice não sofre. Alice é o Mágico de Oz. E sob uma cortina de fumaça, ela bateu os calcanhares mais uma vez, e acordou em casa. Onde as pessoas não acreditam em coelhos e tocas, embora corram atrasadas todos os dias. A menina sorria ou ver os atrasados, e trocava sorrisos misteriosos com o gato cada vez que vislumbrava as portas entre os universos espalhadas pelo mundo. Não mais em seu jardim, onde a menina sorria, chorava, brincava e descobria a vida. Agora, seu jardim era o mundo. E no mundo ela sorria, chorava, brincava e descobria a vida.

Seria tão absurdo assim, que os universos todos fossem só um mundo? Só o mundo? A menina olhava a vida como quem lê um livro. Ela lia a vida. A menina era Alice. E ela não estava preparada para aceitar que o mundo não é o País das Maravilhas. Mas finalmente, ela estava preparada para exercer suas habilidades de Mágico de Oz, e transformar o mundo em um País das Maravilhas. Em meio a espantalhos e leões, chapeleiros e lebres, regada a chá, ela costurava cada uma de suas emoções, como quem costura o Peter Pan de volta à sua sombra. E com esses remendos, ela remendava sua própria alma.

Agora a menina não precisava mais de um furacão para ser transportada para Oz. E nem de cair em abismos. Ela aprendeu a ver as portas, ela aprendeu a voar. E com suas novas asas ela poderia subir aos céus, e aterrissar em Oz, ou poderia descer suavemente a toca do coelho, e seguir pelo País das Maravilhas. Alice não tinha asas. Mas a menina tinha. A menina era Alice de asas.

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