Vivenciando o sonho: O dia em que eu me percebi fantasia concreta

Essa semana estou gripada e com isso tenho estado e casa todos os dias a noite. Há alguns meses criei, finalmente nessa vida, o hábito do exercício físico, e geralmente, entre troca de roupa, aquecimento, treino, alimentação em horário adequado e banho, lá se vão minhas horas da noite. Quando acabo essa rotina, estou cansada, feliz, cuidada e já é um pouco tarde para começar algo novo. Ainda leio um pouco e acabo indo dormir. Antes dessa rotina cuidadosamente construída, esse horário de recolhimento, seria o de começar: começar a estudar, a ler, a viver as poucas horas que possuía para mim, depois de todas as obrigações.

Pois bem, essa semana fui obrigada a pular minha rotina e deixar o exercício físico de lado um pouquinho, e com isso me sobraram horas novamente. Na maior parte dos dias essas horas foram convertidas em sono, agraciado sono curador. Mas minha mente não é das que se deixa aquietar facilmente, nem com sono, nem com febre, nem doente. Se ela não está ocupada, está ativa. Menos quando medito. E por isso mesmo que preciso meditar, se não ela não para. Nem dormindo. Às vezes acho que vim com disco duplo, duo core, que roda sem esquentar. Muita informação sendo processada sem estress, só no plano de fundo, e quando viram ideias aproveitáveis eu as pesco, e trago pro primeiro plano.

No resto do tempo aprendi a assisti-las se formando, como uma nebulosa, e se desfazendo, como bolhas de um rio, ou a espuma branca das ondas, em movimento contínuo e perpétuo, eterno. E só essa contemplação da minha própria mente já é uma meditação e tanto. Para se tornar perfeita, só mesmo se eu tivesse uma penseira, e pudesse assistir a esses torvelinhos de rio interno com os olhos, em vez de vê-los projetados no fundo da mente. Embora ache que nossos olhos humanos são dupla face, mão-dupla, se bem treinados, vemos para dentro também.

Eis que com esse tempo de contemplação somados ao gatilho do dia, cá estou, cuspindo reminiscências mais uma vez. Já discorri sobre o tempo, então vamos aos gatilhos. Também por conta da gripe, e de um clima um pouco mais outonal, saí hoje de meia, botas e cachecol. Nada pesado, tecidos leves, como linha e não lã, mas para nossa terra brasilis já é sair por aí ostentando inverno. Mencionei que agora uso óculos em tempo integral? Apesar de conseguir sair por ai sem eles, devo confessar que meu nível de cansaço facial e mental caiu bastante com o uso diário. Junte num mesmo saquinho, ou numa mesma pessoinha, que é também professora, esse mix de descrição e acabei ouvindo, não de um colega, mas de vários, que hoje eu era a própria professorinha. Não sei bem o que isso quer dizer no imaginário coletivo, se é que a imagem de base de comparação era a mesma. Mas enfim, deixando o aspecto sociológico de lado, cheguei em casa com os elogios, adjetivos, comparações na cabeça.

Fui fazer meu jantar e entre idas e vindas, acabei lavando uma xícara. E observei como as bolhas de detergente faziam um padrão bonitinho sobre a textura da xícara, compondo uma renda. Me detive alguns segundos naquele momento etéreo, tão cotidiano, tão humano, tão feminino, uma xícara ensaboada de detergente, a água da pia fria, o fundo de inox contrastando com o colorido da garrafa térmica apoiada no fundo da cuba, aguardando sua vez de ser limpa, as mãos cobertas daquela mesma renda, unindo mãos e xícara numa coisa só. No som tocava uma banda que costumo ouvir, entre algumas poucas outras, desde a pré-adolescência.

Aqui abro um parênteses, pois minha mente, duo core que é, pensa em mais de uma linha de raciocínio ao mesmo tempo, e devo deixá-los pendurados na imagem estagnada da xícara-mãos-renda-de-sabão, para continuar a reminiscência em outro fio de prata-pensamento, que vai então sendo puxado da penseira. E esse fio-pensamento retoma justamente o início da minha adolescência.

Nessa época eu, talvez por causa de meus livros, talvez por inclinação de personalidade, talvez pelo contexto familiar no qual cresci, comecei a gestar uma auto-imagem-sonho. Entenda, não era e nunca foi uma meta. Não era algo que eu esperava, nem algo que criei como realidade paralela, para fugir da minha. Na verdade, ao contrário de muita gente, eu gostei muito da minha adolescência e fui muito feliz. Mas eu tinha essa imagem de como eu seria. Na verdade é mais complicado do que isso, não era a imagem de como eu seria, era a imagem de como eu era, sempre fui, mas aquela que só existe em nossa mente, no nosso âmago, e não compartilhamos com ninguém, nem mesmo na sessão de terapia. Não sei se vocês possuem esse eu interno, mas eu sempre possuí.

Eu via, desde aquela tenra idade, uma outra eu, que não deixava de ser, em sentimentos e ações, na maioria das vezes, a que eu era de fato. Um pouco mais confiante, e um muito mais livre, despreendida de julgamentos internos e externos, mas só. O que mudava era a imagem. Eu era aquela garotinha de cabelos com corte Chanel, rosto redondo, bochechuda, pouquíssimo inclinada às atividades físicas, mergulhada em meus livros. Que só me sentia voando quando andava de bicicleta, e meu maior sonho impossível era esse, sempre foi, voar. Mas se eu olhasse para dentro, e visse o meu eu ideal, eu me veria como alguém que poderia muito bem ser representada pelo caricato coletivo imaginário de professorinha, embora não tivesse a menor ideia disso na época.

Talvez por isso, mais ou menos nessa época, meu avô, que foi professor, que foi O Professor, tenha me feito prometer que não me tornaria professora. Essa foi a única das promessas que fiz a ele que não cumpri. E tive minha crise para descumpri-la e abraçar esse destino. Olhando com olhos de futuro, percebo que ele via em mim a professora que eu nunca vi. Lá, tão óbvia, que ele viu perfeitamente, e temeu por mim. Não que ele fosse infeliz assim, muito pelo contrário, não conseguia trocar uma lâmpada sem dar uma aula sobre a troca de lâmpadas para todos os presentes no recinto, e mais alguns. Mas sofreu financeiramente, sacrificou juventude, rugas, uma bela aparência e muitas horas de sono pela família, história conhecida nesse nosso Brasil. E me fez prometer, e eu prometi, sem saber porque. Queria vê-lo feliz e tranquilizado.

Mas lá na minha mente, eu me via num mundo colorido, muito maior que os mocassins sempre pretos ou marrons da minha mãe, muito mais colorido e cheio de mimos. Cresci numa casa fantástica, mas muito austera. Onde o bege e marrom predominavam, com toques de verde-escuro, fossem das plantas ou da ardósia do chão da sala e do lustre anos sessenta sobre a inimaginável mesa de madeira maciça. Meu mundo era muito mais rendado, e cheio de pequenas flores e brancos, e azuis claros, com pontos de luz, do que aquele. E no meu mundo eu era um pouco estranha, um pouco caricata, mas colorida e feliz em ser minha própria caricatura. Sempre preferi ser diferente a ser igual.

Nunca essa visão teve um nome próprio, ou barreiras e contornos muito definidos. Mas ela sempre existiu, como uma auto-imagem-sonho. Não algo desejado, não meta a ser alcançada, algo como um reflexo interno, daquela que eu era e não sabia. Ou sabia que era, mas não sabia ser. Eu não saberia, na época, ilustrar a mim mesma, embora esboçasse alguns desenhos interessantes. Mas saberia me reconhecer, se me visse, ao acaso, atravessando a rua. Nunca vi.

Depois essa auto-imagem-sonho foi esquecida. Nunca mais a vi com os olhos que veem dentro. Nunca mais olhei para dentro. Comecei a pensar a vida de forma concreta. Dentro dos parâmetros considerados metas de sucesso, da sociedade moderna. Metas perfeitamente atingíveis com o desempenho escolar que eu possuía. E eu me perdi em mim mesma. Meus olhos que veem dentro escureceram, e os que veem fora se encheram de lágrimas. Passei por anos cheios de lutas e batalhas, horas longas de estudo e trabalho. Refeições, que não podem ser chamadas assim, feitas dentro do carro, no trânsito. Outras feitas numa cadeira de acompanhante de hospital.

Me vi auto-imagem-meta de terno, mulher de sucesso profissional, e estudei, trabalhei. E um dia lá estava eu de terno preto, ou saia social cinza. Lá estava eu após noites insones, sem lembrar o que era uma cama depois de tanto hospital. Lá estava eu anos depois, adulta. Metas concretas muito bem encaminhadas, a poucos passos do tão falado sucesso. Lá estava eu com os pés manchados da terra vermelha do cemitério de Brasília. Lá estava eu tão sozinha. Num mundo tão cinza. Tão preto. Tão só.

E num descuido da vida eu larguei as metas, soltei os dedos um a um. Chorei. Chorei lágrimas de derrota. Dormi várias noites o sono desesperado das noites insones, que não descansa mas cobra uma conta alta. Meu corpo estava transformado num que eu não reconhecia. Eu não gostava do que comia e nem do que fazia. E por isso voltei, voltei ao que tinha me segurado em linhas tão frágeis quando eu não tinha nada ainda e estava no processo de perder tudo. Minha sala de aula. Voltei humilde. Com passos de iniciante. Como quem renasce, mas não se sente fênix. Renasci num mundo pós-guerra. A minha guerra pessoal. E por onde olhava só via destroços.

Esqueci auto-imagem, imagem-meta, imagem-sonho. Esqueci que elas existiam. Esqueci que isso era possível. Resolvi viver. Decidi sobreviver a minha guerra. E viver um dia após o outro. E aos pouquinhos, os raios de luz foram vencendo a densa poeira, que foi baixando, flutuando na luz, se acalmando. E naquele mundo cinza os tons de cor começaram a renascer. Não por plano, não por meta, não por sonho, dentro da naturalidade e da casualidade de cada dia. De cada nascer e pôr do sol. E assim fui caminhando, testando o chão, e o peso que meus ombros conseguiam carregar de volta.

Escolhi meus fardos com carinho, trazendo comigo, dessa vez, apenas o peso daquilo que vale a pena carregar. E a vida foi me encaminhando, e eu fui encaminhando a vida. Sem pensar muito. Contemplando aquele rio interno, onde os torvelinhos se tornaram minha meditação pessoal. Em uma perspectiva concreta e objetiva, eu estou bem longe daquelas tais metas de sucesso. Não que eu esteja em má situação, muito pelo contrário. Mas estou aqui pensando nos tais parâmetros da sociedade ideal atual. No potencial daquelas notas de escola, que ficaram para trás já fazem dez anos.

Voltemos a xícara rendada de sabão. Naquele momento contemplação da xícara, e pensando na palavra caricata que ouvi como adjetivo-elogio hoje, fez-se a luz. E eu me reconheci, como que atravessando a rua. Aquela auto-imagem-sonho se achou, não atravessando a rua, mas lavando uma xícara e vendo sua própria magia ao transformar sabão em renda.

Tudo fez sentido. A mesma música lá do início da adolescência, a casa tão pequena, cheia de luz, de flores, de cores. Eu mesma, a professorinha, agora órfã, para acrescentar ainda mais à caricatura do personagem, os óculos vermelhos e grandes que me deixam com cara de coruja. O cachecol e as meias laranjas, advindos da gripe outonal. E a xícara rendada em mãos.

Eu posso até não saber para onde irei. Eu definitivamente não sabia que estava vindo nesse rumo quando vim, e passei por muitas tormentas que me tiraram do curso inúmeras vezes. E ainda assim, hoje eu me achei, na minha própria auto-imagem-sonho. Sendo exatamente quem eu queria ser e não sabia. A menina de doze anos agradece a caricatura que lava louças com renda. E elogia suas escolhas musicais. Eu espero estar ainda construindo o tal sucesso profissional. Mas independentemente disso hoje posso dizer que me realizei. Ou pelo menos realizei a eu mesma de doze anos.

E ainda escrevo isso. Essa parte é como um sonho que nunca teve coragem de ser sonhado. Talvez eu precisasse virar caricatura, com óculos de coruja, antes de ter coragem de sonhar aquela auto-imagem-sonho, e concretizá-la. Ainda assim dá um frio na barriga só de escrever o “concretizá-la”. Não me sinto lá. Mas me vi lá. Vi-me aqui. Vi de verdade. Vi nos torvelinhos do rio da penseira. E ela era eu. Eu sou hoje, meu próprio sonho. E isso é tão incrível que nem sei quantificar ou qualificar. Obrigada pelo caricato adjetivo-elogio que desengatilhou a memória daquela menina de doze anos que sonhava com cores, livros, chás e palavras.

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