Gripes e a solidão

(texto escrito em novembro de 2013, quando tive minha primeira gripe morando sozinha. Nada como a segunda gripe para publicá-lo aqui)

Dia vinte e oito, vinte e nove já, de novembro. O ano de dois mil e treze está a se acabar. Vivo meu vigésimo sétimo verão nessa terra brasilis. Quando penso no mundo, na histórias e nos séculos sinto nos ombros o peso dos anos e me sinto velha. Em qualquer época, nem um pouco remota, seria uma mulher de meia idade já. E assim, sozinha. Seria uma bruxa da floresta. Uma tia mal falada. Ou quem sabe uma tia bem falada. Tia eu já sou a tantos anos, me sinto mesmo uma tia, assim, no conceito dos contos de fadas. Existem tias nos contos de fadas? Acho que não, me referia a história contada, essa que não é exatamente a dos livros didáticos, mas é a dos livros. Sou uma tia, filha de uma tia. Sei ser tia. Será que um dia saberei ser mãe? Será que soube ser filha? Sempre me achei uma boa filha, comportada nas ações, e desafiadora nas palavras.

Hoje ouvi isso de uma amiga do trabalho. Ela presenciou uma ligação telefônica na qual estava fazendo uma reclamação formal e me disse que se precisasse de alguém para brigar por ela, me chamaria. Mas tarde voltou ao assunto, e comentou que se fosse para partir pro físico ela até encararia, mas que nas palavras, hoje ela tinha visto que eu sei brigar com palavras. Sim, sempre soube. Sempre fui chata. Nunca fui de reclamar por horas e horas. Nem de reclamar gosto. Mas sempre usei um número às vezes excessivo de palavras para expressar o que sinto. Como vocês podem bem ver. Já são duzentas e setenta e oito palavras e ainda nem comecei.

Mas sobre o que falava mesmo? Sobre tudo, hoje estou desconexa, desconectada, estou gripada, obviamente desconectada. Se estivesse presente, assim, conectada com o presente, estaria saudável. Foi uma semana difícil, ontem foi um dia difícil e eu me deixei afetar. Acordei gripada e agora a noite tenho uma febre leve. Vai passar. É só uma noite de tosse, calafrios e sono ruim. Sono? Se der sorte será de sono, ainda que ruim. Nada desconhecido. Foram muitos anos de amigdalites advindas de palavras não ditas. Por isso agora escrevo. Não sei quantas mais trezentas e oitenta palavras serão, mas se conseguir cuspi-las talvez acorde saudável de novo.

Estava assistindo a um filme, deitada na cama, laptop no colo, coisas que só a gripe me força a fazer. Não gosto de trazer o computador pra cama. Mas com a cabeça latejando, fazer o que?! Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Adoro esse filme. Desconexo, tão conectado. E me peguei, aproveitando o calorzinho da base do laptop no colo, com ele já fechado, feliz com o calor do pc, só a febre mesmo pra fazer isso, e pensando em como é se sentir gripada morando sozinha. Meu primeiro pensamento foi de alívio. Assim não incomodo ninguém. Posso ficar acordada o quanto for, tossir, revirar na cama, assoar o nariz de forma nojenta, cuspir, escarrar, descabelar. O segundo pensamento foi o da solidão. A única outra vez que me senti desamparada foi quando acordei depois do acidente de carro em Goiânia, e a assistente social me pedia números e nomes de contato. Me vi refém do meu celular que não estava comigo e me senti só. Claro que isso durou algum segundos apenas, ou talvez até minutos já que com a cabeça aberta o raciocínio fica mais lento, mas rapidamente passei diversos contatos pra ela. Mas ficou o sentimento, aquele vaziozinho, pequeno e fundo, como o buraco que uma farpa grossa deixa depois de ser retirada, e você vê a pele translucida, sem sangue, mas esburacada e se pergunta como é possível. Me senti assim. Vazia. Sem sangue. Só esburacada. Um oco interno. E desde então convivo com ele. Meu oco.

Sei que sou uma pessoa quebrada. Fui remendada tantas vezes. E aprendi com o mestre dos remendos como é que se fazia uma boa solda, quantos minutos de pressão pra colar uma louça fina rachada e a como consertar as coisas em vez de descartá-las.

Existe um prazer solitário, um orgulho próprio daqueles que sabem o quão quebradas já estiveram suas coisas ao vê-las funcionando bem depois do conserto. Assim como Dr. Frankenstein, esses não se importam tanto com aparências. Podem ficar cicatrizes, parafusos na testa, tons esverdeados ou arroxeados. O prazer está em ver o funcionamento perfeito, quando não melhorado, e saber que aquele seu item precioso é agora muito mais valioso, pois tem história pra contar. Vivi assim, assisti a esse processo, a esse impulso vital em consertar as coisas e fiz eu mesma isso tantas vezes. Nunca imaginei que eu seria, eu mesma meu próprio monstro, costurada e recosturada, e por isso, com histórias pra contar. E agora resolvi conta-las, para ver se a amigdalite não volta, para ver se o funcionamento fica perfeito, quiçá melhor do que antes.

E assim já se vão oitocentas e vinte e oito palavras de história contada. Deixei meu pensamento vagar e agora faço algo inédito, deixo meus dedos vagarem pelo teclado, sabendo que se escrever até o final, o risco de que alguém algum dia venha a ler é grande. Não estou editando dessa vez. Bom, não estou editando muito dessa vez. A escolha das palavras é mínima, quero deixar sair, mesmo sabendo que corro o risco de falar mais do que devia, de ser prolixa e perfunctória. Amo essa palavra: perfunctório! Odeio o que ela significa. E é uma palavra feia, de escrita feia e som feio. Amo essa palavra porque era de vocabulário cotidiano do meu avô, meu mestre Gepeto, meu MacGyver, meu Dr. Frankenstein. Aprendi cedo seu significado e sentia um prazer clandestino ao ver nos olhos das pessoas a reação de atordoamento e momentâneo desconcerto quando meu avô a usava em diálogos banais. Eu compreendia e era como se falássemos nossa língua secreta.

Naquele dia do acidente, o dia que tomei consciência do meu oco, do tamanho do meu oco, percebi que não tinha mais meu MacGyver. E que me costuraria por conta própria. Já era, e continuaria sendo, dali em diante com mais consciência do que nunca, minha própria criadora. Naquele dia sofri a ilusão do príncipe no cavalo branco. Veja bem, eu nunca acreditei um príncipes de cavalos brancos. Sempre fui a Mulan, salvando a China inteira por conta própria, e ciente disso. Ok, talvez minha avó pudesse até convidar um dito cujo para o jantar, mas assim, príncipe salvador da pátria, nunca esperei. De berço fui treinada para ser minha própria princesa. Talvez num outro contexto pudesse ser eu a Bela, e entre livros mil, me apaixonar pela Fera. Nunca tive medo das Feras, e confesso que achava ele muito mais bonito enquanto Fera do que como príncipe. Ele não era feroz, só resmunguento, mimado. Já a Bela, ela era feroz, enfrentou a solidão, o desconhecido e a tal Fera por seu Gepeto. Como não me identificar? Enfrentaria mil Feras pelo meu! Salvaria a China dez vezes por ele. Tomaria seu lugar na guerra sem pestanejar. E de certa forma foi exatamente o que fiz, durante os últimos oito ou nove anos.

Agora acabou. Sou só. Não tenho mais por quem ou pra quem lutar. Lutaria tudo de novo por qualquer membro da minha família. Ainda tenho meus Gepetos e meus MacGyvers! Mas eles tem outros aprendizes e sei que se um dia precisar lutar por eles não será da mesma forma. É algo que vai além do meu oco. Ocupa uma parte preenchida do meu ser. Esse oquinho, sempre tive. Acho que já nasci com ele, já que nasci brigando para nascer. Mas eu falava da minha ilusão de príncipe. Pois bem, olha a desconexão e a loucura se manifestando às mil e trezentas palavras. No dia do acidente estava quase oca já. O que faltava morrer estava dentro de mim morreu aquele dia atropelado. Minha Horcrux. Voltei livre, fragilizada, e com meu oco interno. Agora só eu mesma.

Mas me deixei levar pela fragilidade sentida, e achei que tinha um príncipe de cavalo branco por perto. Passei anos tentado avaliar se o cavalo era mesmo branco ou não, mas acho que essas coisas não precisam de avaliação. É como o cavalo branco de Napoleão, a resposta já está na pergunta, e se não estiver é porque não é. Passei dias estudando suas reações, assistindo para ver se tomaria alguma ação diferente. Foi carinhoso, atencioso, e fez muito mais do que sua obrigação. Mas entendi ali que eu não era o amor da vida dele. Se fosse, ele teria visto a quase perda sob seus olhos e isso teria mudado tudo. Por que disso eu entendo. Ver a perda e não mudar só se justifica quando ela é um alívio e não uma dor. Embora toda perda tenha um quê de alívio e um quê de dor.

Talvez por isso tenha seguido em frente com tanta segurança de estar fazendo o que era necessário e inevitável. E por isso aprendi que meu oco nada tem a ver com a presença ou ausência de um príncipe de cavalo branco. Continuo achando que eles não existem. Ou melhor, creio que existam, e que sejam de fato um conto de fadas para todas aquelas princesas que desmaiam, ficam mudas, presas na torre, e dependem de um príncipe encantado que venha libertá-las. Elas existem, em tão pequeno número quanto os príncipes de cavalos brancos.

Eu sei que vou seguir os passos do meu Gepeto, criar meus próprios monstros de Dr. Frankenstein por aí, salvar a pátria quando der, e quando não der, leio todos os meus livros, mesmo que no escuro, entre feras. E se isso será acompanhada o não, por pouco ou muito tempo, já não me importa. Por que sei que tenho meu oco, e que não é tarefa fácil conviver com ele. Já fui princesa do meu castelo, já fui heroína do meu conto de fadas. Hoje sou o próprio monstro. E me sinto tranquila com isso. Aprendi a amar os monstros quando me reconheci neles. Todos somos assim, todos temos nosso lado destrutivo, nosso lado solitário, nosso lado escuso, clandestino. E nem por isso somos maus. Afinal, imperativo sendo categórico que é, o importante é fazer o bem e sentir o bem em si, independentemente da circunstância. É fácil ser princesa cantando aaaaaaa na floresta. É mais difícil ser heroína sobre a muralha, mas o desafio mesmo é ser só bom, justo e correto, entre as feras. É admirar o sol brilhando a cada manhã, mesmo quando se tem um oco eternamente presente.

E não preciso de capa da invisibilidade para circular secretamente, pois vejo as criaturas que só aqueles que viram a morte de perto veem, e voo nelas, juntamente com meus entes queridos já idos, e não preciso de varinha para fazer mágica. A mágica está em cada sorriso que me é arrancado contra todas as probabilidades por um simples nascer do sol, ou uma criança saltitando por aí. Minha dor se cura quando vejo alguém feliz, quando faço novos amigos, e percebo que mesmo entre monstros podemos estar em casa. E minha nova casa é agora parte dessa constelação, onde os sóis brilham, os telefones tocam, e o oco coexiste com a felicidade. A febre passou. Que amanhã o sol brilhe, e que nessas quase duas mil palavras de história contada, a gripe se esvaia, deixando só saúde, paz e luz.

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