Tudo novo, tudo heranças: o meu primeiro domingo sossegado

xícaras de anjo(Texto de 14/07/2013)

Acordo eu hoje, quatorze de julho de 2013, em meu apartamento. Sim, meu e só meu. Esse é meu primeiro domingo sossegado aqui. Me mudei tem uma semana, e hoje acordei sem pressa, sem prazos, sem horários, pela primeira vez desde a mudança.

Depois de passar uma semana carregando, desencaixotando, comprando, buscando e arrumando, posso dizer que finalmente está habitável. Ainda há muito a se fazer, mas a estrutura está pronta. Pois bem, eis que me levanto e decido curtir. Ainda de pijama, ligo uma música, e por querer esse clima calmo de aconchego, quis ouvir o que é mais eu mesma, Skank. Escolhi pela banda e deixei no randômico.

Abri a geladeira, peguei uma maçã, e coloquei um pouco de leite de soja pra esquentar, enquanto a cafeteira ficava pronta pra passar o café. Coloquei a mesa, peguei a geleia de laranja e esquentei um pão sírio do congelador na frigideira. Tudo muito cotidiano, muito familiar. Me sentei a mesa, e comecei a comer a maçã a dentadas enquanto o café esfriava só o suficiente para tomar, e a manteiga derretia no pão quente. E olhei a minha volta.

Tudo novo, e tudo tão familiar. Sem perceber, me joguei numa armadilha tão bem tramada que, só escrevendo para sair dela agora. Percebi que embora tudo seja novo, casa nova, louças novas, comida recém-comprada. Tudo soava como sempre na minha vida. Como meu âmago. Tudo herança.

A geleia eu comprei três dias atrás para um evento do trabalho, mas lendo o rotulo me lembrei que geleia de laranja, uma que gosto muito, era a preferida da minha mãe. E o pão sírio requentado, foi comprado pra minha festa de open house na sexta, mas esquentar pão na frigideira pra comer com geleia era a cara dela.

E o café, ah o café! Máquina nova, presente lindo dos meus tios, e as xícaras compradas por ela em Paris em 2010. Uma rosa e uma azul, tudo em dois. Não para um casal, como seria de se imaginar, mas para nós duas, mãe e filha. E me vi numa mesa nova, de dois lugares, com dois jogos americanos postos, e as duas xicaras parisienses me olhando, com suas asas de anjo. Sim, são xicaras com asas, asas de anjo.

E de repente vi que ela está em mim! De um tanto, mas de um tanto que não dei conta e desabei. Sim, é tudo novo, tudo escolhido por mim, mas poderia ser em qualquer das casas em que vivi minha vida toda, tudo tão familiar, os sons, os cheiros, os gostos. Foi escolhido por mim, mas poderia ter sido por ela.

E dói! Ao mesmo tempo o vazio se preenche e se faz mais presente do que nunca! Me vi nela e a vi em mim. Sei que não estou sozinha. Em um ano e meio nunca me senti tão próxima dela quanto nesse café da manhã, e ainda assim estou absolutamente sozinha.

E assim começo essa nova fase da minha vida, uma fase gostosa e saudosa, onde tudo é novo e tudo é herança.

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