O fundo do poço

A menina está plenamente fora do poço. Será? Talvecropped-bird-tattoo-original.jpgz. Ou talvez ela tenha aprendido que a realidade sempre tem um fundinho de poço. E isto é, então, a realidade? Existe uma só? Digamos que a menina achou a realidade dela. Que tem um pouco de País das Maravilhas, um quê de Oz, um fundinho de poço e um pedacinho de mar no céu.

É preciso explicar melhor as origens da menina. Vocês já conhecem fragmentos, reminiscências, resquícios da história dela, mas existe mais a ser dito. Sempre há mais a ser dito. E por isso mesmo às vezes é preciso que as palavras silenciem. Esse é um momento delas aflorarem. Alguns silêncios viram palavras, e algumas meninas viram Sofias. Algumas Sofias saem das páginas e algumas meninas viram palavras. E essa é a história de como a menina virou palavra. De como ela descobriu que era, também, Sofia.

A menina foi criada da exata forma, que reis em exílio ou desprestígio são criados. Ela só percebeu isso por meio da literatura na adolescência. Mas eu diria que a menina foi mais do que criada, ela foi treinada. E cada familiar participava da educação à sua maneira, com destaque especial para seu avô. Desde de aprender a memorizar dados básicos na primeira infância, passando por sobrevivência básica, e um pouco mais do que básica, por volta dos quinze anos a menina sabia cozinhar, cuidar de uma casa enorme sozinha, se necessário, lavar, passar, arrumar, botar uma bela mesa, receber, e passar café.

Ela também já sabia dançar valsa, embora se ouvisse samba e jazz cotidianamente naquele castelo. Ela sabia costurar, e bordar. Ela sabia nadar, e pescar. Ela subia em árvores como quem cresceu no mato, furava parede e pregava os próprios quadros. Já entendia o básico de mecânica, eletricidade, e dinâmica dos fluidos. Embora ela só fosse aprender os nomes oficiais nas aulas de química e física nos anos subsequentes da escola. PH ela aprendeu ao cuidar da piscina da casa, e junto com os cálculos de PH vieram os de volume.

Ela lia todos os dias, cuidava dos cachorros, cuidava do jantar e dos machucados do avô. Aprendeu a dar injeção intramuscular, e a recitar poesia. Aprendeu a plantar rosas, e a fazer enxertos de mudas, a conservar sementes e a salvar passarinhos de asa quebrada. A menina aprendeu a desenhar e a pintar, e até ganhou um muro só seu, onde podia pintar figuras três a cinco vezes maiores que ela mesma.

Aos quinze fez uma festa a fantasia, e pode passear por seu castelo em roupas apropriadas, saia longa e corpete de veludo, embora aos olhos da realidade fosse apenas uma brincadeira de criança. Ela e o avô construíram uma estrutura própria para o evento, com cobertura de lona, para pista de dança e sacos pardos de areia com velas dentro iluminando os caminhos pelos jardins, rodeando a piscina e levando a sua tenda. Todos participaram.

E, como em todo bom conto de fadas, a menina estava a poucos meses de completar seus dezoito verões de vida, quando no mesmo momento descobriram que ambos, seu avô e seu pai estavam acometidos de câncer. E ela, que estudava como missão de vida, se viu dividindo seu tempo de estudo e preparação com horas sentada ao lado de um leito de hospital. E sem abandonar nunca seu treinamento a menina recebeu seus dezoito anos, um carro simples, a senha de um cartão, e passou a cuidar de seu castelo, que foi desfeito, desmantelado, e ela passou por um período de cinco mudanças em cerca de oito anos. Mas esses são detalhes de outros contos.

Na véspera de seus dezoito verões completos, ela já visualizava o dragão que começava a esquentar sua vida e derreter seus tesouros. Ela só não sabia ainda que riria de boca cheia do ditado matar um leão por dia, porque ela estava só começando um período em que aprendeu a matar um dragão por dia. E foi nessa véspera que ela conheceu o cavaleiro. E como ela viria a precisar desse cavaleiro. Afinal, quando se enfrenta um dragão por dia, que companhia melhor do que a de um cavaleiro treinado e apaixonado.

Mas a história de hoje ainda não é a do cavaleiro. A história de hoje é a de como a menina viveu Alice e tornou-se Sofia sem ver. E para isso precisamos pular cerca de oito anos e meio a nove no tempo, para quando ela abriu os olhos. E se descobriu no fundo do poço. Um dia, a menina abriu os olhos e não viu nada. Absolutamente nada. Ela, que sempre viu luz, que sempre foi a própria luz, iluminando seu castelo, e cumprindo seu papel de neta-vela, que traz luz a velhice dos avós queridos. Ela, que trouxe luz à mãe, quando a mãe lhe deu a luz. Ela estava apagada.

Não havia dragão. O último dos dragões daquele período de batalhas estava morto. Estavam mortos também seus avós, seu pai e sua mãe. Como eu disse, foram longos anos, e muitos dragões, muitos castelos, casas, cabanas, destruídas. E o cavaleiro, vocês me perguntam. Um dia ele se foi também. Como a menina já sabia que um dia ele iria. Mas esses detalhes são do outro conto, lembra?! Ela estava sozinha. Não sozinha na realidade. Afinal ainda havia seus tios reais e reais, reis que viviam a realidade. E, por eles e graças a eles, ela viveu a realidade, embora não houvesse nada de real naqueles dias.

E até hoje ela não sabe dizer por quantos dias dormiu. Como se tivesse mordido uma maçã envenenada, ela acordou sem beijo de amor. E tateou no escuro. Seus pingos de luz secos. E descobriu que estava no fundo de um poço. Um poço seco. Mas como a realidade era real, ela acordou todos os dias, lavou o rosto todos os dias, comeu quase todos os dias, e trabalhou todos os dias. E sempre que ela ficava sozinha tateava seu poço. E dia após dia, mês após mês ela se familiarizou com aquele poço. E começou a chama-lo de casa.

E vagando no escuro, ela redescobriu um dia a música. E só então percebeu que além de cega no escuro, estava surda até então. A música era sua mãe. E as duas tinha ido embora, juntas. Cerca de um ano depois, um pouco menos, a música voltou. E seu beijo de amor verdadeiro foi dado em cada nota, carregada pelos passarinhos, vindas de outro mundo, dos lábios de sua mãe, até o fundo do poço. E a música era doce, doce como a voz da antiga rainha-princesa. E a música não era só doce, era um doce, que a menina comeu e cresceu, dentro do poço. E dele se nutriu para encontrar forças para tentar escalar o poço de volta. Só que o poço era muito fundo e muito escuro, e suas paredes eram cortantes. Ela caia de novo a cada tentativa.

E aos pouquinhos, ela foi se lembrando de todo o seu treinamento, e um dia ela voltou a chorar. E sua lágrima não era só lágrima, mas era também um pingo de luz. E bebendo de seus próprios pingos de luz a menina diminuiu. Ficou pequena, e descobriu que sua porta não estava no topo do poço, porque ela descobriu que aquele não era um poço, era a toca de um coelho. E no fundinho da toca tinha uma porta. E seus tios reais viram seus pingos de luz brotando, e, como em todos os contos de fadas, quando ela abriu os olhos, passando por aquela porta, viu o Big Ben, e foi até Londres.

E a menina, que se vocês repararam, já era Alice naquele momento, andou, a pegou aviões, e trens, barcos e bicicletas, e percorreu um caminho antigo. Tão antigo quanto seus pingos de luz. E juntando pingo com pingo a luz voltou, e ela visitou seus antigos castelos, castelos de verdade, que eram muito menos reais que seu castelo de infância, e atravessou o lago do monstro, embora ela soubesse que monstro eram outros. Aquele era redenção. E ela seguiu os pingos de luz, que a cada novo pingo, viravam pingos dourados, e voltou. E de algum modo ela se descobriu no coração do País das Maravilhas, que é para onde a toca do coelho leva.

E alguns meses depois ela entendeu, que aquele enorme cogumelo, disfarçado de museu, no coração do país das maravilhas, ou do país que só precisa de mais alguns pingos de luz, para se descobrir maravilhoso, encolhia e aumentava as pessoas. Que apareciam gingantes em sua encosta, ao som da música do mundo. E Alice, já totalmente Alice, seguia Absolem, e transitava pelo País das Maravilhas como uma nativa. Seus pingos de luz a haviam guiado e ela já não sentia o fundinho de poço. A menina estava num local e num tempo tão mágico, entre aqueles que são Sofia o tempo todo, e vivem de transformar as palavras em realidade. E foi assim, ao lado do cogumelo-museu, no ano de dois mil e treze, no coração do País das Maravilhas, antes da chuva, e num cine monstruoso, que Alice se viu fora da toca.

Entenda, ela estava no coração do País das Maravilhas, um lugar onde cogumelos são museus, mãos em oração são templos, e o mar é o céu. E foi assim que as palavras de Alice fizeram sentido, afinal, naquele lugar só seu, nada é o que parece, e tudo é o que não deveria ser. E só quem consegue inverter toda a lógica, entende que aquele é um lugar mágico, e transita por ele como quem o habita de fato. E foi só quando ela inverteu toda a lógica que ela entendeu que vinha caminhando de cabeça para baixo toca à fora. Ou seria aquele mundo que seria ao contrário, ou contrário a suas ideias passadas? E a menina, então Alice, inverteu sua lógica própria, e aceitou que a música que chega ao seus ouvidos é um doce que a faz crescer e que seus pingos são de luz, e a diminuem. E todas as suas metas e prioridades foram invertidas. Todo seu treinamento foi questionado, e só então, fez sentido.

Ela precisaria de muitos outros meses para descobrir que Sofia nasceu ali. Seus pinguinhos dourados faziam o caminho contrário dos mágicos, e transformavam a realidade em palavras. Foi naquele período que a menina se tornou Sofia, Alice, e foi assim, no doce de música e na luz dos pingos de ouro que ela descobriu que o fundo do poço era só a porta de entrada pro País das Maravilhas. E a cada dia que passa Sofia se solidifica em palavras, enquanto Alice coleciona pingos de luz dourada, que caem de seu próprio rosto, a cada palavra que Sofia imprime, tornando a fantasia real, e a realidade fantástica.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s